Faço versos com o vento, areia do deserto; minha densidade eu mesma aguento, não sou sexo frágil; imaturidade não concebo, indiscutível é o intento, todavia, quando a maré é alta, o poema sai aos avessos, meio sem forma, mas no conteúdo, ah, ele arrasa e não deforma.

7 de outubro de 2017

O que não me serve, jogo fora!

O que não me serve, jogo fora!

Era o meio da tarde quando ela surgiu. Na face, as marcas de alguém que vive às custas do sofrimento alheio. As fístulas esbranquiçadas pelo excesso de base davam um ar de boneca de terror junto com as linhas finas dos lábios, sempre o ar sarcástico. Uma arrogância de se achar mais do que realmente era. Não entendi quando a vi. O que poderia querer comigo? O prêmio era dela. Havia conquistado a cama e parte da vida do homem que um dia chamei de meu. Mas isso era coisa do passado. Entendi menos ainda quando ela jogou a caixa em cima do balcão de fórmica cinza. Gesto teatral e exagerado como gostam de fazer pessoas superficiais. Não ia conseguir me tirar do sério, nunca conseguiu. Aliás, ouvira de mim coisas que até sua mãe jamais diria. Ouviu que nada valia. Que amizade a gente preservava, e transar com o marido da amiga não justificava as carências de infância. Ela era uma puta. Ele, um canalha. Apenas isso. 
Peguei a caixa e olhei para baixo. Mesmo eu estando sem salto, a mulher mal me chegava aos ombros. A sensação de superioridade, um dia, já me fez bem. Hoje, sequer a percebi, já que a surpresa dela estar ali era maior. Seja o que for, ela conseguiu minha atenção. Sabia que me arrependeria, ela era um câncer que deveria ser extirpado, eu, ao contrário, me expunha, sem nenhuma proteção. Tinha em mim que a mulher não poderia mais me fazer mal. Até o final do dia eu mudaria de ideia.
- O que pretende? Qual é a tua? – falei baixo, a dona da loja me olhou, olhou a caixa e a mulher. Era uma boa chefe, mas a expressão de curiosidade mostrava que logo ela iria até nós e perguntaria o que estava havendo.
- Deixar isso contigo! – na vozinha renitente um quê de triunfo. E, antes de sair, completou com um gesto de mão – O que não me serve, jogo fora!
Após a frase clichê, ouvi os saltos descerem pela calçadinha e podia vê-la caminhando. Um projeto de mulher que não deu certo. O tórax pequeno encravado na cintura, num corpo infantil. Alguns homens, descobriu com o tempo, gostavam de mulheres assim, quase aberrações. Talvez por se sentirem grandes e fortes, mas não vou pregar psicologia barata num momento destes. A caixa continuava entre minhas mãos, fazer o quê? Ir até o lixo e jogá-la fora. Isso. Sabia que qualquer coisa que viesse da mulher não prestaria. A inveja dela foi sempre uma companhia desagradável, estimulada por um homem inseguro, cuja necessidade maior era ter as ‘escravas carentes’ ao redor. Habituara-se a ter o antídoto para as doenças que isso trazia. Todavia, estava cansada de engolir tudo sempre, de deixar para lá, de não brigar. Sempre em nome da paz.
Até o final do expediente, lutei com o desejo de abrir a caixa e com os olhares da dona da loja. Mas escapei ilesa. Depois de meia hora de trânsito lento, cheguei em casa. Levei a caixa até o quarto e a deixei em cima da cama. O objeto criou um contraste com a colcha amarela, mas fiz que não vi. Tomei banho, fiz comida. Jantei. Vi televisão. Quando entrei no quarto, sabia que já tinha protelado demais. Então, abri a caixa.
As próximas três horas foram de dor e sofrimento. Descobri que o conceito de amizade que tinha era bem diferente de algumas pessoas. Vi fotos pornográficas de mais de dez mulheres diferentes e, ele, o homem que um dia tinha sido meu em todas elas como protagonista. Vi o sofá da sala que morava. Vi a colcha vinho. Vi a mesa da cozinha. Vi os vídeos das surubas. E embora quisesse parar de ver, não conseguia. Vi tudo até o final. Depois, coloquei de volta e fechei a caixa. Ela permaneceu na minha cama até o outro dia. Eu dormira no sofá.
Levei a caixa para a loja. Passei até o meio-dia com ela embaixo do balcão. Na hora do almoço, a resgatei. Após vinte minutos de carro, cheguei à casa de muro baixo e cimento cru. Pela janela, a mulher da cara marcada me viu. Percebi que, além da surpresa, um certo receio de aparecer a tomou. Ri por dentro. Ela lembrava da última surra, pelo visto. Então, a chamei. Um pouco receosa, ela veio. A tia e o primo de plantão dentro da casa. O meu sorriso era mais sarcástico quando ela se aproximou.
- Vim te trazer isto! – Vi que ela olhou para a caixa sem entender. – Não é para mim que tens que dar! – E sem que ela esboçasse nenhuma reação, deixei a caixa em cima do murinho e finalizei: - O que não me serve, jogo fora!

Andréa Iunes

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