31 de outubro de 2017

Abstrato


Abstrato

Grãos de areia
beijam a brisa
gaivotas voam
buscam morros
em sinas e gritos
sem socorro
passos se afastam

passadas rápidas
voo do tempo
assim sem rima
surge abstrato
poema de esquina
pintado num quadro.

Dhenova

28 de outubro de 2017

Hora de dormir

Hora de dormir

A manhã de sábado me pega acordada. Estive contando estrelas e, ao perder a conta, várias vezes, perdi também a noção do tempo. A imagem da despedida virou pano de fundo da minha mente. Pelo vidro do carro, teus olhos eram esferas de fogo, buscavam meu rosto. Mantive a mesma expressão de paisagem. Daquelas que a gente espera só um pouquinho e desmorona, sim, doeu muito deixar-te. Arrancou parte de mim. E depois da partida, eu, cabisbaixa, dolorida, sentei no meio da sala e chorei como uma criança, até colocar toda a raiva deste destino louco. Faz a gente cruzar com gente que ama, mas precisa deixar ir. Ah, Destino, tu não cansas?
As estrelas sumiram e agora, pela janela, o cinza reflete meu íntimo. Não quero café. Só queria dormir. Um peso que não havia faz meu coração bobo bater mais fraco. Expeli um veneno que não era meu. Fiz-te livre. Paguei minha sina e volto para casa. Cansada, mas feliz. Etapas são feitas para serem ultrapassadas, então, ficamos assim em busca de outro objetivo, outra meta que nos mantenha vivos. Todavia, o encantamento a gente guarda, bem no fundo, num cantinho. E quando a vida nos açoita forte, só ir lá, buscar na fonte a poesia necessária para andar mais um pouco e outro pouco.
O céu não ficou azul. As nuvens estão pesadas. Um ventinho frio bate insistente na vidraça, resquício da chuva de granizo do dia anterior. O café esfriou e não bebi. O livro de poemas continua em cima da mesa e me fita. Logo mais, penso. Agora é hora de dormir.


Dhenova

Olhos de fogo

Olhos de fogo

mãos tremem
hora do abraço
dizer adeus
não é fácil
olhos vermelhos
emoções frágeis
sem segurança
mundo grita
alma cansa

porta fechada
janela coberta
vãos cimentados
correntes perdidas
tudo acertado
e ainda assim
um bagaço

beijo na boca
adeus pelo vidro
sufoco e delírio
outro e de novo
tantos abrigos
soltam faíscas
teus olhos de fogo.

Dhenova

27 de outubro de 2017

Pelos campos


Pelos campos

sol no céu da boca
pelos campos
corrida mais louca
eu tu nosso encanto
assim meio rouca
grito o meu canto
tiro a roupa
sem desenganos

grama gelada e orvalho
sorriso de mata
pelos campos
sanga transborda
fiel na pegada
minha tua cara de anjo

encontramos remanso
na madrugada
amanhã hoje outro dia
assim pelos campos
fortes no abraço
cantamos poesia.

Dhenova



25 de outubro de 2017

Parceria


Parceria de Canto

O pássaro à janela
na música do tempo
viu abrir a cela
encontrou remanso
dividiu mazelas
desfez-se em encantos
buscou feliz aquela
parceria de canto

viu morrer a tarde
em nuvens de algodão
céu sem estrelas
cinza ficou o chão
guardou numa tela
pronta e acabada
toda aquela queda
insana e farta

sorriu ao destino
pela contramão
aceitou com pesar
outra simulação
de que o seu par
deixara a solidão.

Dhenova

24 de outubro de 2017

Águia


Águia

teus olhos nos meus
por um instante
terra que treme
águas em ebulição
algo entre o transe
e a colisão sutil
de cometa e estrela
céu de conspiração

teus olhos nos meus
perdidos os traços
lápis e borracha
papel reciclado
desenhos a esmo
linhas fortes
triângulo abstrato
e outros recortes
penas, ossos, cenas

na força no bico
sabedoria nas patas
no teu voo livre
encontro resguardo
teus olhos de águia
deixam-me liquefeita
joelhos gelados
cela descoberta, feia

e assim indecente
não tenho o cuidado
ouço o grito no cimo
atendo ao teu chamado.

Dhenova

22 de outubro de 2017

Ciclos


Ciclos

em cada ponteiro
do torto relógio
pedras brilhantes
refletem memórias
de olhares distantes
amores simplórios
em jardins gigantes
canteiros notórios

replantar roseiras
marcadas no tempo
na caixa, sementes
perdidas do vento
embalar a canção
enterrar os ais
tudo ao momento
construção do cais

caladas, as bocas
assim sem histórias
encontram no beijo
atenuante de glória
e os tolos rompantes
abafados na trajetória
presos a línguas loucas
sufocam sem escapatória

Dhenova

17 de outubro de 2017

Momentos


Momentos

O sol observa meus sonhos
as lentes da câmera 
sorvem os delírios
e as ondas batem 
insistentes na areia
então, reflito

há dias sem preço
horas sem fim
recomeços e recomeços
planta, flor e jardim

à mercê do olhar castanho
tom da água da laguna
privo-me do pranto
lavo bem as feridas
e sigo cantando

há momentos e tempo
delírios e desejos
homens e ventos
egos e segredos

pés recebem da areia
a massagem dos grãos
energia que passeia
inflama a emoção

há poesia no grito
do quero-quero
há melodia no rito
suspiro sincero

olhos buscam a arte
centelha de mistério
nos dedos, a viagem
tudo aquilo que quero

Dhenova

Sol no corpo


Sol no corpo

areia morna
pés descalços
vento nas costas

sol no rosto

onda que quebra
sem desgosto
bate nas pedras

sol no rosto

dedos macios
descobrem montanhas
vales e rios

sol no corpo

abraço apertado
areia morna
grãos nas costas

sol no corpo

onda que quebra
sem desgosto
bate no corpo

sol no rosto

Dhenova

16 de outubro de 2017

Em meu peito


Em meu peito

que venha a madrugada
fria ou melancólica
que venha a nostalgia
e a suas demoras
cinza verde ou ametista
tanto faz se alma de artista
ou só mais um ser simplório

que venha a manhã cega
em meu peito
as tuas descobertas
entre minhas pernas
tua força eterna
tua risada alta
saliva doce
em meu peito
teus sonhos

Dhenova

10 de outubro de 2017

'Ah, eu sou o máximo'

'Ah, eu sou o máximo'

'Ah, eu sou o máximo'
dizia Golias
filho do padrasto
também o vizinho
chato pra caralho
que infernizava meu dia

mas eu sorria
entendia
menino moço
faltou um dengo
e a vida na lida
pra ele, tormento
em mim encontrava
aceitação imediata
sorriso de filho
por tudo se passa
ele não percebia
e eu calava

certa tarde, todavia
um homem de idade
apareceu num importado
Golias fugiu
como um desesperado
o homem atrás

foi encontrado mais tarde
pobre Golias
que se achava o máximo
morreu com três balas
cravadas no peito
sem sorriso no rosto
acabou fedendo, no fim
tal qualquer outro.

Andréa Iunes


7 de outubro de 2017

O que não me serve, jogo fora!

O que não me serve, jogo fora!

Era o meio da tarde quando ela surgiu. Na face, as marcas de alguém que vive às custas do sofrimento alheio. As fístulas esbranquiçadas pelo excesso de base davam um ar de boneca de terror junto com as linhas finas dos lábios, sempre o ar sarcástico. Uma arrogância de se achar mais do que realmente era. Não entendi quando a vi. O que poderia querer comigo? O prêmio era dela. Havia conquistado a cama e parte da vida do homem que um dia chamei de meu. Mas isso era coisa do passado. Entendi menos ainda quando ela jogou a caixa em cima do balcão de fórmica cinza. Gesto teatral e exagerado como gostam de fazer pessoas superficiais. Não ia conseguir me tirar do sério, nunca conseguiu. Aliás, ouvira de mim coisas que até sua mãe jamais diria. Ouviu que nada valia. Que amizade a gente preservava, e transar com o marido da amiga não justificava as carências de infância. Ela era uma puta. Ele, um canalha. Apenas isso. 
Peguei a caixa e olhei para baixo. Mesmo eu estando sem salto, a mulher mal me chegava aos ombros. A sensação de superioridade, um dia, já me fez bem. Hoje, sequer a percebi, já que a surpresa dela estar ali era maior. Seja o que for, ela conseguiu minha atenção. Sabia que me arrependeria, ela era um câncer que deveria ser extirpado, eu, ao contrário, me expunha, sem nenhuma proteção. Tinha em mim que a mulher não poderia mais me fazer mal. Até o final do dia eu mudaria de ideia.
- O que pretende? Qual é a tua? – falei baixo, a dona da loja me olhou, olhou a caixa e a mulher. Era uma boa chefe, mas a expressão de curiosidade mostrava que logo ela iria até nós e perguntaria o que estava havendo.
- Deixar isso contigo! – na vozinha renitente um quê de triunfo. E, antes de sair, completou com um gesto de mão – O que não me serve, jogo fora!
Após a frase clichê, ouvi os saltos descerem pela calçadinha e podia vê-la caminhando. Um projeto de mulher que não deu certo. O tórax pequeno encravado na cintura, num corpo infantil. Alguns homens, descobriu com o tempo, gostavam de mulheres assim, quase aberrações. Talvez por se sentirem grandes e fortes, mas não vou pregar psicologia barata num momento destes. A caixa continuava entre minhas mãos, fazer o quê? Ir até o lixo e jogá-la fora. Isso. Sabia que qualquer coisa que viesse da mulher não prestaria. A inveja dela foi sempre uma companhia desagradável, estimulada por um homem inseguro, cuja necessidade maior era ter as ‘escravas carentes’ ao redor. Habituara-se a ter o antídoto para as doenças que isso trazia. Todavia, estava cansada de engolir tudo sempre, de deixar para lá, de não brigar. Sempre em nome da paz.
Até o final do expediente, lutei com o desejo de abrir a caixa e com os olhares da dona da loja. Mas escapei ilesa. Depois de meia hora de trânsito lento, cheguei em casa. Levei a caixa até o quarto e a deixei em cima da cama. O objeto criou um contraste com a colcha amarela, mas fiz que não vi. Tomei banho, fiz comida. Jantei. Vi televisão. Quando entrei no quarto, sabia que já tinha protelado demais. Então, abri a caixa.
As próximas três horas foram de dor e sofrimento. Descobri que o conceito de amizade que tinha era bem diferente de algumas pessoas. Vi fotos pornográficas de mais de dez mulheres diferentes e, ele, o homem que um dia tinha sido meu em todas elas como protagonista. Vi o sofá da sala que morava. Vi a colcha vinho. Vi a mesa da cozinha. Vi os vídeos das surubas. E embora quisesse parar de ver, não conseguia. Vi tudo até o final. Depois, coloquei de volta e fechei a caixa. Ela permaneceu na minha cama até o outro dia. Eu dormira no sofá.
Levei a caixa para a loja. Passei até o meio-dia com ela embaixo do balcão. Na hora do almoço, a resgatei. Após vinte minutos de carro, cheguei à casa de muro baixo e cimento cru. Pela janela, a mulher da cara marcada me viu. Percebi que, além da surpresa, um certo receio de aparecer a tomou. Ri por dentro. Ela lembrava da última surra, pelo visto. Então, a chamei. Um pouco receosa, ela veio. A tia e o primo de plantão dentro da casa. O meu sorriso era mais sarcástico quando ela se aproximou.
- Vim te trazer isto! – Vi que ela olhou para a caixa sem entender. – Não é para mim que tens que dar! – E sem que ela esboçasse nenhuma reação, deixei a caixa em cima do murinho e finalizei: - O que não me serve, jogo fora!

Andréa Iunes

6 de outubro de 2017

Carinho


Carinho

Assim sem jeito
veio o passarinho
no pouso leve
procurando ninho

assim, tão breve
conquistou lugar
voou o passarinho
voltou devagar

assim sem jeito
veio o passarinho
no beijo cálido
cheio de carinho

assim, tão suave
veio com vontade
voou passarinho
fez minha a viagem

Dhenova