23 de dezembro de 2016

Bradicardia


Bradicardia

E assim foram todos os rasgos, fechados um a um, com agulha esterilizada pelo choro de estrelas, costurados e feitas as laçadas, fechado outro e outro, até chegar ao bobo, que batia, batia tanto. Ainda tonto, desorientado. Tão louco, enamorado, enamorado. 'Ah, bobo! Tu és um fiasco', pensa a mulher dos cabelos de prata. Então, sem perceber, a linha enlaçou o coração. Apertou - sufocou seus anseios. Diminui seu ritmo pressão sentido. Amarrou-o com laço, bem dado ao meio. Sem artifícios. Enrolou-se toda, linha também tão boba. Ficou presa quando a mulher blindou o íntimo com chapas do universo perdido. Agarrada a linha ficou e o coração, agora, batendo fraco fraco. O suficiente para manter viva a mulher, cabelos de prata, e a emoção cativa, antes tão farta. E tudo ficou frio... escuro... sombrio. Até apagar a centelha. O sono virá. Breve... de uma vida inteira.

Dhenova

9 de dezembro de 2016

sorriso de algodão doce



sorriso de algodão doce

brisa tem gosto
de algodão doce
sorriso farto
mostra dentes
delírios, fatos
então, assim
fiz o relato
esquecido o passado

brilho na retina
verde amendoado
luz que intimida
deixa tristeza
quase de lado
rugas de felicidade
mostram atos
e a tonta pureza
de silenciosos rastros.

Dhenova

6 de dezembro de 2016

Com medo

Com medo

faz isso não, seu moço
tenho receio
palavras gentis, consolo
sagrados segredos
tão bobos
e eu continuo com medo

faz isso não, moço bonito
carinho se paga
com outro carinho
por isso morro de medo
e continuo sozinha
trilha florida e perfumada
e continuo sozinha
ainda calada

faz isso não, moço risonho
permaneço deitada
cansei da escravidão
de ser só escrava
palavras escritas
guardadas na caixa
entreterão vidas
e continuo sozinha
ainda calada

faz isso não, moço debochado
vou dormir agora
sei que estarás à espera
palavras gentis e doces
vou dormir agora
gargalhadas na noite
ainda com receio
continuo calada
mas não mais sozinha

faz isso não, seu moço
enterneço com medo
ah, seu moço
guardei em mim teu segredo.

Dhenova

5 de dezembro de 2016

Lunática

Lunática

Lua vira o rosto
nuvens a resguardam
colar no pescoço
abraço calado
sem aconchego
frio, sem mormaço
'ainda é cedo'
pensa a moça de preto
fisgada e anseio
buraco no peito
lágrimas densas
madrugada a dentro

estrelas perfumadas
carregam dados brancos
flor de pedra, talvez rosa

carregam mágoas secas
violetas douradas, roxas
sementes de jasmim... verde?

balanço de madeira
cabelos que dançam
fios dourados, vermelhos
derradeira menina
canta os sonhos
assovia... assovia...

água que escorre da face
ilumina como lanterna
veia do rio que nasce
rasa, mansa?.. sim, eterna.

Dhenova