Faço versos com o vento, areia do deserto; minha densidade eu mesma aguento, não sou sexo frágil; imaturidade não concebo, indiscutível é o intento, todavia, quando a maré é alta, o poema sai aos avessos, meio sem forma, mas no conteúdo, ah, ele arrasa e não deforma.

27 de novembro de 2016

Elegia



Elegia

De olhos vendados
nasceu o dia
sem carinho da noite
não pulsou a Poesia

Céu encoberto
fantasia sem rima
os tantos açoites
agora pedem justiça

Fios de ilusão
enfeitam os postes
apagam as luzes
antes tão fortes

De mão em mão
foi-se a harmonia
ficou apenas
insana elegia.

Dhenova

23 de novembro de 2016

Sem rei

(imagem da net)

Sem Rei

'Retiro-me', disse a mulher
embriagada de melancolia
'Vou à luta', continua ela
mais decidida
'Fui injustiçada', isso dói, ela sabe
como faça afiada
cicatriz no decote
'Nunca pensei', baixa a voz
'Mentiras e mentiras contadas'
'O quê me tornei?', ela sorri
sorriso amarelo sem rir
'Mulher mal amada", ela sabe
nem atriz de quinta
'Não emocionei'
salão vazio sem valsa
Só uma rainha sem rei.

Dhenova

22 de novembro de 2016

Quando calo...

Quando calo...

Atirada ao espaço
solta dos galhos
em raivosa lufada
céu escurecido
vermelhos os raios
pressinto o perigo
bato no chão
e grito

Enrolada na areia
perco a direção
cada grão incendeia
picada de abelha
e maré cheia
verde corpo no mar
vou na contramão
batizo sentidos
e grito

Mergulho no gelo
marcada por dentes
carrego nas mãos
poesia demente, rasgada
esvazio as quadras
clichês e rimas
esqueço das mágoas
das guerras e fadas
quando calo em mim
o mesmo grito.

Dhenova

21 de novembro de 2016

Fim de tarde

Fim de tarde
.
Tristeza abraça o corpo
fim de tarde
cansada, entrega o jogo
e paira

Melancolia entranha-se
nas paredes
sombras desenham nomes
forma-se a expressão
'entre, por favor!'

Laço apertado de fita
mãos e pés amarrados
antes, sorriso e menina
Hoje só poesia
sem gran finale.

Dhenova

20 de novembro de 2016

Açucarada



Açucarada

acordo, lânguida
sinto na pele
esta ânsia
tocar-te de leve
nuca molhada
beijos e trilhas
bicos arrepiados
boca e língua

acordo, açucarada
fantasia e proposta
busco calor na lira
sinfonia e lirismo
alguma resposta
mostrará a saída
letras tortas
escritas em linhas
invisíveis

acordo, lânguida
beijos e trilhas
bicos arrepiados
corpos e línguas.

Dhenova

13 de novembro de 2016

Poesia nas Paredes



Poesia nas Paredes

fantasiei arremedo
naquele dia
energia do medo
pessoas atingidas
contei nos dedos

sorri dos degredos
barriga vazia
ainda assim 
silenciei anseios

fiz da diversão 
minha covardia
direitos em mãos
dancei ao riso
qual melodia?

faca afiada
cortei pedaços
teu íntimo gelado
cubos, quadrados
embalei-o todo
em plásticos

viajei na lucidez
ver-te guardado
reservei potes 
brancos, verdes
sem nitidez 
no quadro

procurei calor 
perto do chão
sem rede
não adiantaria 
a exposição
poesia nas paredes.

Dhenova

9 de novembro de 2016

Invasão



Invasão

A manhã chega e me encontra de olhos abertos, em sonhos, é certo, tudo porque a lua crescente virou cheia em plena madrugada… e a Poesia, essa bandida, invadiu minha sacada.

Dhenova

2 de novembro de 2016

Sem sombras



Sem sombras

beijo a madeira 
sinto o gelo nos lábios
quase a mesma sensação
dos cortes certeiros do aço
espada atravessada no âmago
por um ser nada encantado

e eu choro... choro doído
tenho claro em mim 
o cinza do asfalto

beijo as sombras
neste mar frio e revolto
não vejo as montanhas
no campo, flores mortas
no veneno da picada
bicho peçonhento 
dá fim a jornada

e eu choro... choro maldito
torto, sofrido

acreditei em contos de fadas
mas vi também que as bruxas 
nem sempre são malvadas

beijo as sombras
refaço meus círculos
desejo somente a sorte
a quem vive de artifícios.

Dhenova

Mar de Borboletas


Mar de Borboletas
.
O tecido macio acaricia a face cansada e, nos olhos, encravada está a melancolia, fica ali, represada... Mas, sem querer, lábios encostam na pele, encontram a trilha de pintas, que segue até o joelho e some na curva da perna... então, dedos impassíveis lançam-se ao caminho inverso... E depois, bem depois, vem o estremecimento, onda no mar de borboletas coloridas... cabeça que pende, não mais atrevida... olhos que perdem a melancolia, agora brilham no escuro, centelhas de vida.

Dhenova