30 de outubro de 2016

Sobre a cama...

Sobre a cama

Sobre a cama de casal, o vestido preto. As mangas abertas ao lado do corpo fino e longo do veludo. Os brincos de pérolas e o colar próximos a gola em V emolduram o quadro. Tudo sobre a colcha de cetim rosa. Não há sapatos, nem mesmo meia-calça. Se houvesse talvez fosse preta. Também nenhuma das pulseiras há no conjunto, as que cobrem o ponto e vírgula tatuado no pulso da mulher de cabelos negros. Enquanto isso, ela permanece sentada à janela e tenta enxergar através do vidro molhado, buscar lá fora gratidão. Não consegue encontrar. O tempo passou e não percebeu. Desde a noite da descoberta. Pegou o exame às 19 horas, abriu o envelope branco lá pelas dez da manhã do outro dia. Os próximos seriam de dor e resignação. Largou a pintura em tela, primeiro… depois a fotografia. Quando desistiu da escrita, a companheira marcou consultas médicas. Não quis ir a nenhuma, apenas ficar quieta. Ficou e se recuperou dos males, quase todos. Não falou para ninguém da ligação que voltou a sentir com a morte, aquele afã que comprimia o peito, acelerava o sangue nas veias, deixava suadas as mãos. Colocou um sorriso no rosto depois do acontecido. Todos a cumprimentaram, havia nascido de novo. Até aquela manhã de primavera. Agora o vestido a espera em cima da cama. Os braços abertos. A mulher levanta e vai até o banheiro. Quando volta, cobre o corpo nu com o tecido macio. O preto adere à pele. A maquiagem escura reforça o azul dos olhos. Enche o copo. Olha para os comprimidos e sorri.

Dhenova

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