7 de outubro de 2016

Luzes Acesas


Luzes acesas

Dobrei e redobrei todas as roupas. Agora, elas estavam separadas por cores, não que fossem muitas as roupas, nem tantas as cores. Tudo simples, prático, sem exuberância, alguns diriam sem gosto. Nunca me importei com isso, roupas velhas eram confortáveis, era o que queria, apenas ficar vestida. Olhei para as portas ainda abertas do armário embutido. Ficaram bonitas as pilhas. Cinza, azul, verde, marrom, tudo meio morto mas eficaz. Quanto tempo duraria? Uma voz infernalzinha atiçava-me os ouvidos. Continuei meu monólogo. Também organizei os sapatos, inverno e verão; os lenços coloquei em saquinhos plásticos. Juntei todas as bolsas, gente, para quê tantas? Acomodei o que não queria em duas enormes sacolas, brechó nelas na próxima semana. E continuei o passeio pelo monstro que me toma uma parede inteira. Em cima, três prateleiras cobertas de lembranças, naquelas não ouso mexer, não são minhas. As minhas foram colocadas dentro de uma caixa de papelão, embaixo da estante de ferro, caixa que já não carrega nada que pese. Aprende-se com o tempo a abraçar apenas o que realmente o corpo e a mente podem levar. O resto deixa-se pelo caminho. Por último, guardei cada objeto espalhado em cima da mesa, única mesinha num quarto para três, e tudo que isso significa. O resultado ficou estranho. Limpo, organizado… quanto tempo duraria mesmo? A maldita voz incomodava outra vez, importunava. Há coisas que já nasceram mortas, sei que sim, assim como essa minha insistência em tantos clichês, tudo bem. Eu assumo o que sou, viver de imagem ninguém precisa ou tem. Agora era hora de dormir, cansaço tomava meu corpo. Chuveiro e escova de dentes. Apaguei as luzes, foi aí que vi piscar. Luz verde no celular. Respirei fundo. E com a cura me brindou o anjo. Trinta e nove mensagens de doçura, amizade e brincadeiras. Com luzes acesas, voltei a dormir, pensando em quanto tempo duraria a arrumação nas prateleiras.

Dhenova

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