9 de março de 2016

Zelo

Zelo

Cai a tarde. Alguns pássaros procuram as árvores e fazem a gritaria. Talvez contem as novas do dia, reclamem do sol quente ou do vento… ou só falem dos sentimentos, como devem fazer os bem-te-vis. Vejo as crianças e suas bicicletas, olhos brilham, risadas, desafios e tanta amizade escorrega pela calçada, cobre a rua, quadro coroado por um grupo de garças, unidas num voo sincronizado e penso: ‘há tanto não sinto frio’, ‘há tanto sem inverno’. Nesse momento, um arrepio sobe furtivo pelo braço, a brisa fria lembra o gelo de alguns dias, sinto oprimir o peito, de leve, vem a nostalgia… mas quando meus olhos ficam escuros, tua mão quente encontra meu ombro, teu corpo macio ampara o meu, o calor deixa-me tonta, afasta a escuridão a tua força, faço dela merecido descanso, abraço teu zelo, respiro fundo e permaneço.


Dhenova

3 de março de 2016

Feras

Feras

Então, eu soube
no sonho o corvo
trouxe no bico
teu bilhete escondido

e no ciclo da lua
verei tua face
sem máscara, nua
de força, coragem

Entrelaçados nossos dedos
desejo de tantas eras
mantidos os segredos
libertas as feras.

Dhenova

2 de março de 2016

Caricato

Caricato

O quadro foi pintado à óleo, num abstrato em preto e branco; trazia linhas diagonais em vermelho agora esmorecido, um rosa estranho, nem antigo, nem vivo. O que antes poderia mostrar um grito, hoje não passava de sussurros, os mesmos que se ouviam nos corredores da velha casa, da grande e velha casa, onde morava Elisa, artista que pintou o quadro; Elisa suicidou-se no quarto, mas o quadro continuou pendurado na sala, exibia traços disformes, sem nexo; clichês eram os desenhos formados, como cerâmica de antigamente, quadrados e quadrados esparramavam-se, alguns ausentes, náuseas em ondas sentidas no estômago, dor intensa no pescoço. Elisa pendurou a obra na parede, ao lado da lareira, um pouco antes de aceitar que seu destino não era ser eterna, nem tampouco guerreira.

Dhenova