22 de dezembro de 2015

Olhos

Olhos

sabia da vinda
meses antes
do ser obscuro
olhos de diamante
pressentia o perigo
homens, mulheres
sem abrigo
pássaros presos
por barbantes
olhos de pedra
merecem o gelo
de algumas eras

sabia da vinda
saído do lodo
homem de capuz
e gorro
cabelos longos
olhos de vidro
agarrou a vida
pela segunda vez
não pediu socorro
ainda que a pálida tez
mostrasse os estragos
saído da lama
homem de capote
e manta
sorriso nos lábios
e olhos de morte.

Dhenova

7 de dezembro de 2015

Recomeço

Recomeço

febre que me toma inteira
dor que separa ao meio
a cabeça
célebre busto de madeira
cor que acerta em cheio
em vermelho
sem que impeça
o choque

choro que me vem aos olhos
corte que ainda comove
sem ilusão
corro sem aviso, sem receios
morte se apresenta sem medo
em resignação

e, sem segredo, eu vejo
tua mão estendida
penso em farois e ilhas
em direção

sem querer, eu quero
essa santa acolhida
sinto a calma que habita
essa súbita paixão

mando às favas os anseios
ser alguém não tem preço
quero viver os tempos
ressuscitada pelo recomeço.

Dhenova

Vagalumes

Vagalumes

Geralmente, quando a fumaça do cigarro voa solta pela sacada e encontra o infinito escuro da noite percebo-me só, rodeada do perfume da rosa mais vermelha e há centelhas ao longe, bundinhas verdes que iluminam a grama recém cortada... a fumaça não alcança as bundinhas, é certo, nem tampouco arrefece o perfume... o quadro ainda não me toma inteira, mais uma tragada, mais longe o perfume, mais uma tragada, o cinza mescla-se ao verde e só... não chove, é noite de estrelas pontiagudas, deságua em mim o mesmo pranto de saudade, de uma outra metade que se foi e que não vai voltar, e esta água agita-se, escorre de mim, cobre a sacada, escorre pela viga... e chega à terra... ali infiltra-se e permanece. 

Dhenova

Vazio

Vazio

vou tirar este eco
que vibra no peito
sim, fechar o boteco
parece o único jeito

sem correr perigo
operar as vísceras
sem querer abrigo
ter ilusões inúmeras

quero pintar o vazio
até preenchê-lo todo
apostar num arrepio
se vier sem incômodo

viver para ser imagem
não me agrada em nada
sou feita de coragem
e aposto na madrugada

não preciso de pouco
quando minh'alma é muito
ando perguntando tanto
ainda sem resposta alguma

necessito de paixão
combustível que move
faço letra e canção
sou metal que comove.

Dhenova

Versos sujos

Versos sujos

Quero ser a letra U
do alfabeto erótico
sentir o acento agudo
cravado sem corte

ter a língua enfiada
enquanto os dedos
em ações coordenadas
são arremessados lentos

advérbios de intensidade
socados até o fundo
explodem rimas pobres
receber do G o sumo

aguentar o porte
e, em galope,
de P ter o rumo

e, assim, em urros
interjeições absurdas
sem noção de tempo
aceitar locuções cruas
gozar versos sujos
saídos de dentro
numa poesia impura.

Dhenova

4 de dezembro de 2015

À Francesa

À Francesa

Então, a linha de chegada
foi ultrapassada
sem alarde ou desespero
eu pego a mala e a bolsa
e saio ao vento
cansei de ser trouxa
dos incansáveis lamentos
vícios antigos matam
e histórias bobas
não causam sentimentos
as antigas então
traduzem o caráter
de quem sabe pouco
ou nada da vida
gente pela metade
não merece acolhida

e a vitória ficou longe
não me importei com isso
algumas cagadas grandes
assassinam o riso
e deixam o ar impregnado
do cheiro fétido
dos gases atrevidos

achei graça do jantar
assim como das galinhas assadas
que fedem enquanto enroladas
e balançam gorduras
quando são enrabadas
e ficam rodando e rodando
na assadeira danada
impossível não rir
com algumas roubadas

todavia, saí à francesa
busquei ar em outro momento
certas companhias causam
apenas terríveis tormentos
quem insiste em sofrer
são seres inconsequentes
masoquismo não curto
ninguém precisa 'ser' menos

não, é certo, ninguém viu
e sorri ao céu escuro
lá fora, por fim, a lua
atendeu aos meus desmandos
mostrou um caminho prateado
refletido sobre o muro.

Dhenova

Elementos

Elementos

E os castelos cor-de-rosa que eram cinzas foram destruídos. Um a um despencaram das bases. Não sobrou pedra inteira. Nenhuma para contar o que houve. Ninguém apareceu e sumiu, deixou vestígios da destruição, mas alguém que nunca será ninguém reconstruiu o que tinha sido destruído. E ele, não quer castelos, só uma casinha comum e espera, à parte, por uma decisão.
A vida é regida pela paixão, eu rodo rodo rodo e grito, uma desvairada que ri e chora e olha o anel na estante que ri também, ri, ri, ri, ri de mim assim como o velho gordo que decide tudo por nós, simples mortais, nós que amamos e perdemos e perdemos e amamos de novo. Nós que não perdemos as esperanças, culpados de espírito, cobaias deste jogo de horror. Baixemos a cabeça para ele e nos deixemos levar!
Enquanto isso, eu sou água que corre na sanga de pedra, sou água fria, gelada, que corro e não paro, arrastando folhas... e galhos. Onde iniciou? Não sei, não pergunte, aceite, só, sem mistificação. A corrida é mais forte, o chão falta. Despenco no abismo.
E viro vento, vento forte que queria destruir aquela árvore verde. Não quero mais, quero só passar por entre os ramos, imperceptível. O rumo mudou. Aquele sorriso já não brilha e o sol se escondeu. É noite e as estrelas não trazem um nome. Formam sim, o rosto de alguém, que nunca será ninguém, porque ninguém não existe mais. Mas esse alguém está longe, me deixou sozinha nessa noite. Volte alguém! Eu grito. Eu preciso de ti! Ele não escuta, está de costas para mim. Eu, que ainda sou vento. Então mudo de direção e, nessa mudança brusca, faço redemoinho e arraso o que estava de pé.
Tu me encontras perdida no sul e agora sou fogo. Queimo, destruo, aqueço. Aqueles tambores ecoam, as batidas cadenciadas, rápidas, tão fortes quanto a do coração, o meu, quando sinto que estás dentro de mim. Eu te quero! Grito de novo. Eu te adoro! Mas não ouço tuas batidas. Então, para chamar a atenção, me faço maior e milhares de fagulhas se desprendem. Te machuco. E foges do ardor, vais curar as feridas em outro lugar, não aqui, não comigo. E choro, choro muito e me torno água outra vez.
Terra? Algum dia, talvez, só terra...
Hoje, no entanto, vivo no ciclo fatal daqueles que para sentir necessitam morrer.

Dhenova

3 de dezembro de 2015

Desdenhices

Desdenhices

Desdenhar o rebolado é fácil
difícil é acompanhar o passo
quando a cintura reclama o ócio
há necessidade de pontos e laços

desdenhar a curva da boca é comum
diferente é o tom que vem em carmim
que faz das tuas noites pesadelo
que lembra mordidas insanas e medo

desdenhar a gargalhada solta é praxe
assumir o riso que vem da garganta, não
quando o desafio vira esculacho
as desdenhices destoam a canção.

Dhenova

(Inspiraturas Palavrainventada)

Charmélio

Charmélio

Foi com tanto charmélio
que o dançarino assim veio
atravessou a pista
encontrou o degrau no meio

foi com tanto tomboscauto
que o rapaz saiu a pinote
tropeçou nas próprias calças
perdeu de vez o norte

foi com tanto vergonhaço
que rápido levantou o braço
saiu a dançar, mancando
despistou o embaraço.

Dhenova

(Inspiraturas Palavrainventada)

Paredes frias

Paredes frias

não foi por maldade
sem nenhuma intenção
ou até mesmo vontade
matei minha paixão
o que é pela metade
não instiga emoção

não foi por querer
foi só a madrugada
ela me fez ver
que pedir amor
não vale nada
atenção, carinho
tem que vir de graça
mãos dadas, beijinho
assim a vida passa

não foi premeditado
o meu gesto grave
saiu meio atravessado
fechadura sem chave
assim se abriu
a sala da agonia
lá dentro, o vazio
mostra in off
paredes ocas e frias.

Dhenova

2 de dezembro de 2015

Sem jeito

Sem jeito

São tão sem jeito as minhas letras
nada faz efeito, tantas trocas
e, no amor, sempre a mesma derrota
de ter nascido fato e não proposta
de ter querido vida e não aposta
de ter morrido arte e não concreta
de ter ressuscitado poesia
e não música brega...

sim, são sem jeito as minhas letras
enquanto o peito dói a cada batida
lambendo estou todas as feridas
permaneço fria, digna e sofrida
não quero mais o desafio de ser bem-vinda
de ser estrela, prefiro as vacas
sou guardiã e guerreira
atravesso a tempestade de facas
calada ficarei pela eternidade
de moça faceira a ser de bondade

já fui um mundo... já tive coragem
hoje calo fundo... e boa viagem!

Dhenova