27 de outubro de 2015

Fêmea



Fêmea

Outrora, havia o riso
em série
vitorioso
fadado ao erro
Outrora, voluntarioso
quase pleno

Agora, só metáforas
ainda que sejam ricas
rimas desconexas
marcam outro compasso
não há notas certas
surgem em espasmos
Agora, pela mão do Poeta
as cartas do baralho

Amanhã, haverá a falha
lava escura que arrasa
busca da crua palavra
algo entre o sim
e a tua pegada
Amanhã, não haverá mais nada

Assim, sinto-me isenta
sem eira
à beira
intensa
Assim, me sinto... ilesa
e fêmea!

Dhenova

Afagos de Fogo



Afagos de Fogo

naufrago em tua retina
meus olhos, afagos de fogo
sombras projetadas sem rima
busco no mergulho o voo

amanheço molhada e cinza
na areia da praia
coberta de falhas
visto-me de vento frio
esfrio, acalmo
percorro nua a estrada

maquiagem azul, quase violeta
pés descalços, sem bagagem
esparramo tons sobre os cometas
na trilha me basta a coragem

sim, naufrago em tua retina
sem rima, sem sinas ou iras
sombra projetada na parede

é hora, de apagar a porta
fechar a luz
trancar o armário da cozinha
...

"É hora, amor, de esperar lá em cima!"

Dhenova

26 de outubro de 2015

Depois do fim

Depois do fim

Há um vento frio da Lagoa
que entra pelas frestas
não é o Minuano que açoita
só o 'niño' que se apresenta
machuca, estressa, magoa

Há um vento ácido
diabólico, malvado... vento frio
resquício de maio, talvez de abril.

Há um céu azul cobalto
acima das nuvens cinzentas
há o calor vermelho do sol
quando ele aparece, assim, intenso

Há um céu azul tão longe
e um sol que some... sem segredos.

Depois do fim...

Há um sensível canto
inspirado ao redor da fogueira
que pode ser ouvido à noite
quando passa a bebedeira

Há uma canção apaixonada
dedicada à menina dos sonhos... agora amada?

Há um pássaro à janela
que me observa, espreita, atrevido
anda empinado, de lá pra cá
faz a corte, é simpático, extrovertido

Há um pássaro doce
forte, risonho... do lado de lá.

Dhenova
26/10/2015

Sem nada

Sem nada

Ando por aí
nem quente
nem fria
sem companhia
nem quente
nem fria

Ando por lá
nem simples
nem complexa
meio sem graça
ando perplexa
nem simples
nem perversa

Ando por ali
nem triste
nem feliz
sem melancolia
aprendo o que quis
nem triste
nem feliz

ah, ando por aqui
nem disposta
nem arredia
sem propostas
meio sombria
nem disposta
nem... nada
apenas vazia!

Dhenova

25 de outubro de 2015

Rito

Rito

O vento sussurra ao meu ouvido
coisas pra falar de amor

A lua canta bem baixinho
poesia, versos, louvor
O vento vem fazer carinho
A paixão desconhece a dor

Vejo no céu ainda tímido
palavras escritas com lápis

O sol geme em desalinho
glórias, traços, recortes
O céu se abaixa um bocadinho
Sensação que vem do norte

A geada me fala um pouquinho
coisas pra sentir o amor

Dar vida ao papel em branco
Asas ao pássaro que voou
Perfume à flor que do papel brotou

A brisa me leva as mágoas
sorrio ao vento, à chuva, à madrugada
Mergulho em profundas águas
para melhor ouvir as fadas

Vejo no rito o dom eterno
coisas pra falar de amor

Roberto Camara & Dhenova

O Pranto dos Plátanos


O Pranto dos Plátanos

Gaivotas voam tristes pela lagoa
há um silêncio sombrio
em cada pedacinho da orla

cachorros cansados e arredios
deitam-se ao sol, à toa

O trapiche foi tragado por águas bravias
na poesia, ele fez seu marco
deixou cinco poetas 'enovelados'
e agora se foi... sem um abraço

o pranto dos cúmplices plátanos ecoa
há conchas repletas de vazio
feito sorriso que agora se destoa

restam nos lábios acesos delírios
quentura de versos que voa

um amor que resiste às horas frias
e na chuva, constrói seu barco
nos olhos abertos ainda eclipsados

resgate poético do trapiche
[em alegrias banhado

Dhenova e Rogério Germani

22 de outubro de 2015

Na Mata


Na Mata

Foi na trilha da mata
que dei o grito
assustei os pássaros
acordei perigos

Desenhei no papel
intolerável sentença
joguei fora os anéis
perdi a paciência

Foi na água da cascata
que reinventei meu rito
ensaiei novo pouso
construí outro abrigo

E, no azul do mesmo céu,
restaurei a presença  
de um leve viés
à minha consciência.

Dhenova & Lena Ferreira

Iceberg


Iceberg

São águas doces as minhas
fui atirada ao mar
sem pena, dilema
fui assim, atirada e só

tornei-me sólida, gélida
endurecida até as entranhas
estilhaços de vidro
formando o bloco
não me restaram as manhas
nem os cantos de Gaia
sem façanhas
fiquei estática

Agora, ao sabor das marés
sou iceberg que vagueia
pelo mar azul da imaginação

o gelo que arde, queima
vem das minhas mãos.

Dhenova

21 de outubro de 2015

Num salto



Num salto

O que me encanta é o riso
debochado, escrachado
desses que burlam o siso

o que me apaixona é a música
saída da tuas veias ácidas
que chega faceira e nefasta

e se a minha gargalhada
tomar-te de assalto
pela eterna madrugada
venhas rápido, num salto

buscar-me assim sem mote
a trote, num verso branco
para colorirmos a sorte
de sermos poesia 
num universo à parte

Dhenova

16 de outubro de 2015

Perdas e ganhos

Perdas e ganhos

Voei até o pico mais alto
juntei no caminho sonhos
fiz da realidade um traço
rasguei da cortina o pano

senti frio com o mormaço
ainda que encantada
busquei no ninho abraço
versos livres na madrugada
fui longe atrás de laços
e no fim tudo deu em nada

esqueci da fumaça na estrada
e que alguns sentimentos passam...

voltei até a planície enrugada
jorrei água azul num círculo
senti perdidas as asas
não fiz caso dos vícios
nem da brisa fria lá fora

quando se esquecem os perigos
cada qual sabe a sua derrota.

Dhenova

15 de outubro de 2015

Lá fora

Lá fora


Lá fora, mais uma tempestade
raios, trovões, vento forte
cá dentro, a chuva é fria
e fina... neste inverno
eterno, só
sem companhia

Lá fora, a possibilidade
de molhar os pés
respiração ofegante
sorriso farto, emoção
constante... sem sinas?

Lá fora, tanta maldade
temerosas as nuvens
formam inúmeras cruzes
felizes são os covardes
dispersos pelas esquinas
sustentam-se no 'eu acho'
colocado em verso sem rima

Lá fora, pingos são pedras
que castigam telhados
cá dentro, construo um muro
com os estilhaços.

Dhenova

7 de outubro de 2015

Se faço chover



Se faço chover

ali, fiquei
deitada no chão
barriga pra cima
olhos abertos
sem nenhuma ferida
crua como o deserto

fiquei, ali
sem ser bom ou ruim
apenas permaneci
olhando o nada
enquadrando a lua
assim deitada
quase nua
tão desprezada...

foi quando riscou no céu
um raio de luz
traçou um desenho
talvez um quadrado
gesticulou incerto
entendeu-se amado
aproximou-se farto
tocou-me os dedos
fez-se de rogado
aliviou meus medos
aninhou-se casto

agora estou aqui
sem saber
se olho à luz
ou se faço chover...

Dhenova

6 de outubro de 2015

Um lance

Um lance

foi assim
chorei rios
lagoas e mares
sofri no frio
padeci nos ares
e esperei paciente
tentei com coragem

ah, carga pesada
largar tudo
na estrada
não pude conceber

fui tão mesquinha
barco à deriva
não se mantém n'água
de tudo, restou nada
e o 'eu te amo'
mudou de nome outra vez
não há o que esconder

mas escutei a voz
e ela dizia obrigado
ao fundo, a trilha sonora
trazia lágrimas aos olhos
a palavra solta no quarto

resgatá-la não foi erro
apenas verdade
hoje sei que tolos medos
conviverão sem maldade
e os anseios serão liláses

A hora é de subir um lance
ir sem deixar saudade.

Dhenova

2 de outubro de 2015

Ah, foi assim...

Ah, foi assim...

foi quando eu já morria
rosa flor um dia vermelha
ah, agonizando eu sofria
expirava última centelha
paixão abandonara a dança
ficara assim sobre a mesa
apenas um fio de esperança
sentimento livre, sem beleza

abandonara os palcos a poesia
os livros foram fechados, queimados
atados foram os laços, pedaços de cobre
cobiçados pelos antigos lordes
e seus insanos conchavos
apenas uma visão do passado

e a flor rosa morria... sem proeza
sem alarde, sem sofrimento
morria sem um suspiro, calada
sucumbia ao céu sem nuvens
de forma quase alada

foi quando eu sobrevivi
e ninguém entendeu nada
rosa flor agora vermelha
sorri ao sol que brilhava tenso
fiz piruetas com um lenço
segurei os cabelos do tempo
voltei a ser rainha no meu universo
como se não me bastasse ser menos
desabrochei em plena primavera
teimosa e escandalosamente bela
flor que transmite amor
e vira tema em aquarela

ah, foi assim... quase uma novela.

Dhenova

1 de outubro de 2015

Nunca fui eu...



Nunca fui eu...

Encontrada foi a moça de cabelos vermelhos, aquela que servia ao tal Rei, a que tinha nome de Anjo... nunca fui eu... meus cabelos são castanhos, castanhos escuros; e meus olhos cor de amêndoa, raiada de sol num temporal de emoções intensas... Sabe? Aquela que servia ao tal Rei? Nunca fui eu!

Andréa Yunes