24 de setembro de 2014

Desgaste dos Trilhos

Desgaste dos trilhos

O trem seguia impassível
engolia cada metro
sentimento indestrutível
ver a morte de perto
todo o resto... é resto!

Serpenteava a ladeira
abocanhava cada centímetro
ignorava as faíscas
de ferro com ferro, atrito

balançava as engrenagens
em curvas deliciosas
apalpava cada dormente
como amante dengosa

adiante, a última parada
sabia o efeito do grave apito
mas não tinha jeito
ia gritar
havia um silêncio duro
fazia vibrar
as entranhas daqueles muros
em cada estação, naquele lugar

e ele veio estrondoso
como urro de bicho
sim, de fato, poderoso
veneno num esguicho.

O mecanismo foi parado
freado num suspiro
o ranger apaixonado
fez eco ao ouvido.

Pensamentos perfumados
espalharam-se pelas janelas
e os sorrisos fartos
abriram celas e celas

e o quadro foi pintado
a fotografia revelada
com todo o cuidado
marcados ano, mês, hora.

O trem seguirá em frente
percurso íngreme, ou não
de forma coerente
saberá, contudo, de antemão

que emoções ásperas
tornam discursos descoloridos
e canções salgadas
fazem arder o desgaste nos trilhos.

Dhenova
24/09/2014

23 de setembro de 2014

Primavera

Primavera

Na tela em branco
o pincel cria vida
azul celeste no retângulo
acima do horizonte a linha

e aquece o amarelo
em esfumaçados pontos
fecha-se na hora o elo
atrás do marrom dos morros

tinge o verde de leve
as trilhas coloridas
nas pétalas das flores a breve
história de cada relíquia

E o gris de paine nos cantos
dá a profundidade rasa
em recortes profanos
a tristeza fica sem graça

o Vermelho sutil
cobre a areia
num tom gentil
o Titânio marca
a onda faceira

E o conjunto se mostra
inteiro, performático
como a mais rica lenda
retrato selvagem e sagrado.


Dhenova
23/09/2014

19 de setembro de 2014

Insight

Insight

Fiquei pasma
com tua passionalidade
ainda que encantadora
vejo só minha vontade
e ela é grande, de ir embora,
aqui acaba-se a trama
ignora-se de vez a maldade
esquece-se os dramas.

Fiquei ali, perversa
enquanto te vestias
para ser honesta, sem pressa
no fundo divertida
como velhas promessas
e a eterna barriga vazia
- agora eu tinha um segredo
e aproveitaria...

Ficaste sentado no degrau
cimento cinza mijado
no carro, malas amarelas
não ficaram à espera
a viagem começa
perdeste a cara de pau
e as vias viraram celas

por alguns instantes

não chorei na estrada
não haveria lamento
sem qualquer jogada
cada passo a seu tempo

e antes que fizesse a curva

tu já tinhas te levantado
atravessavas a rua
caminhavas descalço.

Dhenova
18/09/2014





14 de setembro de 2014

9 de setembro de 2014

Trancada... chaveada...


Tuas notas



Tuas notas

Teus dedos fizeram o intervalo
entre a nota mais alta
e a primeira
tocaram reentrâncias
deixaram rastros agudos
melodia inteira

teus dedos foram a cura
para alguns absurdos
sempre a mesma procura
a de títulos puros
e dos tantos ângulos
incrivelmente obscuros

teus dedos criaram a canção
liberta de uma cela
o ápice da emoção
numa súplica singela.

Dhenova
8/de setembro/2014

2 de setembro de 2014

Cansaço


Cansaço

Cansei dos velhos ritos
das rusgas, artifícios
cansei das mesmas cenas
e dos crassos, tantos vícios

Cansei da mais lúdica briga
quero paz na espinhosa trilha
cansei de ser a grande chata
preciso, sim, é ser amada

Cansei das eternas estrofes
voltando aos mesmos temas
cansei dos feios clichês
não cabem mais num poema

Cansei da infame ladainha
quero pensamentos perfumados
amor impresso na folhinha
coração livre, encantado.

Dhenova