Faço versos com o vento, areia do deserto; minha densidade eu mesma aguento, não sou sexo frágil; imaturidade não concebo, indiscutível é o intento, todavia, quando a maré é alta, o poema sai aos avessos, meio sem forma, mas no conteúdo, ah, ele arrasa e não deforma.

28 de agosto de 2014

O Crime do Século

O Crime do Século

Colocou o carro na garagem e subiu os cinco andares sem ter pressa. Podia ter pego o elevador, mas a adrenalina não deixava, queria andar, não correr, apenas andar e respirar fundo em cada degrau escalado. Chegar até o número 504 foi fácil, o seu apartamento. Abrir a porta e escorregar para dentro também. Sentar no sofá e olhar o telefone foi automático, mas a vontade de ir até lá e olhar as mensagens a abandonou. Queria fechar os olhos e esquecer. Mas o telefone às vezes tem vontade própria quando faz aquele barulhinho irritante que invade a sua casa, seus pensamentos, sua vida. Foi atender. Fátima era amiga de infância. Uma grande amiga que não deixava de ligar para saber como estava. Dia sim, dia não. Gostava do carinho e da proteção daquela pessoa maravilhosa, uma mulher linda, que a menina sardenta, de dentes separados, havia se tornado. Conversaram sobre banalidades, um churrasco no final de semana, um passeio na praia, um evento destes que costumavam fazer. Fátima, é claro, arrumaria um daqueles acompanhantes insuportáveis mas bem intencionados como sempre arrumava. Sorriu ao telefone quando lembrou do último. Um homem bonito para a idade, com seus quase sessenta, perfumado e que se vestia muito bem, mas longe estava de ter um bom papo, falou o tempo inteiro da loja que possuía, dos carros, das festas que dava. E, apesar da palavra festa lembrar música, ela não ouvira música, não havia tocado no seu íntimo aquela canção que há tanto esperava. Fátima ria dela quando falava sobre isso. Dizia que estava velha demais para ‘ouvir a música’. Ela respondia que nunca ficaria velha para ‘ouvir a música’ e se não ouvisse até a sua morte, tudo bem, mas não deixaria de procurar. Ficar com qualquer pessoa apenas por ficar sim seria morte em vida, a surdez. Fátima nada dizia, apenas balançava a cabeça e dava aquele sorriso, meio triste meio irritado. Fátima nunca havia ouvido a música, daí não entendia. A ligação terminara com a amiga dizendo sempre a mesma frase: “Maria, não vá faltar, hein?” Ela não faltaria. 

Arrastou-se até o quarto. Um cansaço de tudo começava a lhe consumir. A temperatura estava amena, embora fosse início de primavera, e Maria despiu-se em frente ao espelho do quarto. Estava em forma apesar de ser cinquentona, tinha belas coxas e uma bunda que alguns meninos paravam para olhar. Sorriu sem querer. Alguns também já haviam dito que o seu sorriso encantava. Mas o sorriso sumiu quando lembrou de Fátima e da história da música, talvez ela tivesse razão. Talvez fosse uma grande bobagem morrer sozinha, tudo porque acreditava que em algum lugar houvesse música. A solidão começava a lhe corroer. Precisava sentir um abraço bem apertado, uma mão estendida, acordar alguém com seu sorriso e ser acordada com um beijo. Pegou o roupão preto pendurado no cabideiro e foi para o banho. Demorou mais tempo do que o normal. Quando saiu, as pernas estavam menos doloridas, a tensão nos ombros também. Pensou no charuto dentro da gaveta na cozinha e no copo de uísque duplo. Tudo o que precisava. Saiu para a sacada, o roupão mal fechado. Sentou no chão e se encostou nas grades brancas. Acendeu o charuto após tomar um gole de uísque. No céu, a lua crescente iluminava mais do que deveria.

Quando terminou de falar com o neto, Ivan respirou fundo, colocou o celular dentro do bolso da calça jeans, saiu do carro e se dirigiu ao elevador. Sorriu ao lembrar do convite para passear de barco e pescar. Adorava os momentos que passavam juntos. Aquele menino havia dado um novo sentido a sua vida após ter perdido a companheira de tantos anos da forma cruel como havia sido. Ela não merecia ter sofrido tanto. Ele não merecia ter passado por tudo aquilo. ‘Tudo’ fora injusto. Agora, depois vários anos, podia lembrar sem que lágrimas lhe turvassem a visão. Todavia, custou a achar o interruptor de luz quando entrou no apartamento. Precisava relaxar. Largou a caixa com o instrumento que era sua paixão em cima do sofá e foi para o banho. Quase uma hora depois, renovado, ainda emotivo, voltou à sala e abriu a caixa. Tocou no objeto dourado, sentiu a maciez que só ele sentia. Tocava nele como se tocasse a pele de uma mulher, com dedos apaixonados. As lágrimas teimavam em voltar. Largou a peça de volta à caixa e foi até a janela. Lá, Ivan a viu. Uma linda mulher, parcialmente nua, fumando um charuto e bebendo uísque. Impulsivamente, desligou a luz da sala e voltou à janela. Ela continuava lá. Olhava à lua. Ele também olhou. Crescente. A mulher parecia triste. Havia algo em sua expressão que ele não definia. Solidão? Ivan sorriu e se afastou da janela. Estava ficando velho, como já havia lhe dito o neto, estava imaginando coisas. Bem no fundo, sabia que havia se afastado da janela por medo de ver o marido da bela mulher chegar até a sacada e pegá-la nos braços e levá-la para dentro. Um frio no estômago o deixou surpreso com esse pensamento. Melhor manter distância das janelas, pensou, enquanto ia para a cozinha.

Macarrão era seu prato preferido, rápido, sujava pouco e ainda alimentava. Gostava de cozinhar e, sempre que podia, Ivan fazia um jantarzinho e convidava a filha e o neto para saboreá-lo. Conversavam sobre a rotina de cada um. A filha, professora alfabetizadora, contava-lhe os problemas por que passava na escola; Ivan, em contrapartida, falava sobre as aulas de música que ministrava na faculdade; e o menino falava dos amigos que a nova escola estava lhe proporcionando. Ficavam até perto da meia-noite conversando e rindo sobre um e outro. Amava estes momentos. A filha ficara viúva há três anos, o marido perdera a vida num acidente de avião e ela resolvera voltar a morar perto do pai. Ambos se apoiavam em suas perdas. A filha sempre com a ideia de que um dia Ivan encontraria uma companheira que ‘merecesse estar com ele’, dizia. Ele não queria uma nova companheira. Após pensar isso, a imagem da mulher do roupão preto veio-lhe a mente. “Mas que droga!”, pensou. Antes que percebesse estava diante da janela outra vez. A mulher continuava lá, sentada no chão da sacada, o charuto já havia terminado e o uísque também. Era tarde e não havia nenhum marido, pelo visto. Ivan pôde ver, quando ela levantou o rosto mais uma vez para a lua, a face bonita molhada por lágrimas. A mulher do roupão preto estava chorando.

Maria sabia o porquê das lágrimas que começaram a correr pelo seu rosto. O aperto no peito tomou proporções que ela não conseguiu conter, nem quis. Pensou na mulher estendida no asfalto. Ela deveria ter uma família, alguém que estivesse esperando por ela. Alguém que receberia uma ligação e ouviria num tom comedido e impessoal, a fulana de tal sofreu um acidente entre as ruas tal e tal, um caminhão perdeu os freios e passou por cima dela exatamente na faixa de segurança, infelizmente, ela atravessava naquele momento. A pessoa de tom comedido ainda diria que sentia muito, mas a moça da calça listrada não conseguira sobreviver. Maria sabia que se fosse alguns segundos depois também estaria embaixo daqueles pneus. As chaves do carro, estacionado no outro lado da rua, haviam caído do bolso do seu casaco. Parou, abaixou-se, pegou as chaves e quando se levantou a mulher, à sua frente, estava embaixo dos pneus do caminhão. Maria havia sobrevivido. “Sim, sou uma sobrevivente!” Quando terminou de pensar isso, ela ouviu. Maria ouviu a música. No edifício ao lado, da janela bem à frente, o brilho do saxofone podia ser visto, assim como os acordes de “Crime of the century”. Maria não pensou no roupão aberto quando levantou do chão da sacada. Ela apenas ficou encantada, olhando para o brilho do saxofone dourado. Sorriu para as notas intensas e, como numa prece, levantou as mãos à altura do peito. Maria finalmente ouvia a música.

Ivan nunca havia agido de forma tão impulsiva quanto naquelas últimas duas horas. A mulher de roupão preto o deixava assim. Pegou o saxofone de dentro da caixa e foi até a janela. Abriu a vidraça e começou a tocar sua música preferida. A mulher precisava parar de sofrer. O que aconteceu depois foi puro encanto. Ela levantou-se e ficou bem à sua frente, olhando embevecida para o brilho dourado do instrumento. A luz da lua brindou Ivan com a visão de um corpo escultural e um sorriso inesquecível. A mulher abriu os braços e acolheu o saxofone, os acordes, Ivan. Ela ouviu a música.

Dhenova

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