Faço versos com o vento, areia do deserto; minha densidade eu mesma aguento, não sou sexo frágil; imaturidade não concebo, indiscutível é o intento, todavia, quando a maré é alta, o poema sai aos avessos, meio sem forma, mas no conteúdo, ah, ele arrasa e não deforma.

29 de março de 2014

Pontilhão



Pontilhão

Na madeira já carunchada
pontos negros fazem os desenhos
circulares, de vindas e idas
caricaturas num horizonte imenso

vidas que passam lado a lado
roçar de destinos idênticos
trilhas de pedras, o azul do lago
perpetuando o quadro, um Picasso
sem cores intensas

nas tábuas corridas
pés que andam descalços
lutam por cada passada
emoção que vale nem um centavo

e eu observo cada instante
letras por letras que não dizem nada
capto a existência em cada semblante
imóvel à beira da estrada.

Dhenova
29/3/2014

No romper da aurora



No romper da aurora

Vinha o amanhecer
arco dourado no vale
nas montanhas o sagrado
coração símbolo alado

E foi no romper
bola amarela clara
subindo aos céus
marcou presença na estrada

Iluminou folhas e flores
escondeu raízes e espinhos
orvalho que subiu sedento
buscando no ar novo tempo.

Dhenova
29/3/2014

25 de março de 2014

Versos pelo avesso

Versos pelo avesso


Eu busquei a folha
Papel reciclado
Tom cinzento
Sem cuidado
Sentei no chão
E fiz o retrato
Torci a linha
Tentei o vão
Caí no valo
Caneta na mão
Revirei os versos
Não achei o avesso
Sinceramente
Meu universo
Continua intacto
Meus versos sem avesso
São só isso: versos.

Dhenova
1/7/2010

20 de março de 2014

Detrás do balcão

Detrás do balcão

Foi de lá que eu vi
a loira peituda
e o moreno comprido
chegando sem estardalhaço
Ele, com muito cuidado
puxando a cadeira
pra mulher nota
que sorria faceira
esperava molhar o bico
bebida maneira
cansada da lida
gruta dolorida
ela seguia inteira

E o cara encantado
olhava discreto
o fundo decote
do tipo 'me come'
mas só se for forte
o saldo bancário

Foi de lá que eu vi
o rosto da 'moça'
sorriso forçado
escrito na testa
'vamô fudê logo, palhaço'

E o cara nada
só puxava papo
falava de solidão
busca e procura
dos desvãos
tudo com muita candura

Foi de lá que eu vi
vi quando ela levantou
e foi embora
não houve juras de amor
nem grandes memórias
O cara comprido
lamentava: 'a mina era minha
que mancada!'

Enquanto ela se afastava
por entre as mesas
fera inabalada
pronta pra o trote
buscava nos olhos da vítima
momento certo
pra outro bote...

Eu vi... foi de lá...

Dhenova
20/3/2014

7 de março de 2014

Transparência

Transparência


De quê adianta
meus olhos buscarem
as tuas cores
se neste quadro de violetas
o tom preto é a essência?

De quê adianta
meus dedos tocarem
a tua mais límpida água
se neste lago encantado
o fundo é amarelado?

De quê adianta
meu rosto querer
o teu peito
se neste aconchego
o desejo já não é mais permitido?

De quê adianta
a fala do meu coração
de ser teu amor, tua paixão
se neste simples fato
engano-me na transparência do ato.


Dhenova - maio/2009