2 de janeiro de 2014

Lances

Lances

Sinto a frieza do concreto nos pés descalços, e subo o primeiro degrau. A vontade é de pedir socorro mas respiro fundo e continuo. Mais um degrau. São doze até o primeiro lance. O prédio caindo aos pedaços, mais três lances e encontrarei o topo afinal.
Nos primeiros seis, uma pedra me espera. Mas não me atenho. A luz da lua ilumina a fenda, marca o cinza e distorce a cena. Quase desisto. E sei o quanto me vale o risco. Penso no feitiço e na oferenda. Penso na emoção de ser a primeira da fila horrenda. O frio nos pés, os dedos arroxeados... tudo tão lúgubre, tão insano, cruel... a meta é o outro lance.
É com as pernas pesadas que me aproximo do meio, o frio subindo, a umidade gelando as canelas... tudo tão frio, tão escuro, vejo vários olhos grudados nas fendas. Quase choro. Mas mantenho a envergadura. Sou feita de metal agora. Continuo apostando na rusga.
É o último lance. Lá em cima, eu sei, ele me espera. Talvez com a faca na mão, ou dormindo na cama de casal, ou tomando banho ou na sala, vendo tv, ou escutando música... não conto apenas que talvez ele tenha ido mesmo embora, como disse na penúltima cena, antes de me jogar escada abaixo, tornando tudo cinzento.

Dhenova

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