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Dos rios que não cruzei... não sei!

30 de julho de 2013

Cacos de Vidro

Cacos de Vidro

Das paredes que um dia foram brancas, sai o vômito verde do limo. Escorre em formas variadas formando triângulos abstratos entrelaçados, círculos amassados nos cantos, retângulos esfumaçados pelo mofo já escuro. A calha de ferro perde os pedaços e alguns ficam pendurados, ligados por fios invisíveis. Talvez com um vento mais forte ou com a próxima chuva irão parar no ralo, entupido pelos resíduos acumulados dos anos. Por enquanto, deixam o quadro em preto e branco. E no fundo um Gris de Payne sem brilho. Coroando a tela, cacos de vidro colados em cima do muro impedem o acesso, dos que vêm, dos que vão. E a chuvinha fina acentua as pontas afiadas apontadas para o céu. O colorido é embaçado pelo cinza do pó, da poluição, dos dias e noites, de água e de sol.
O banco de madeira espera paciente o resto dos anos que lhe resta. Ao lado dele, o lírio luta por ar e luz com uma tal espada. Ambos, prisioneiro e refém e vice-versa, habitam o mesmo espaço, veem o mesmo limo.
Longe, acima, a velha árvore, com longos galhos verdes, também apontados para o céu, e alguns para os pátios de cidadãos comuns, mostra um norte que vem do sul. E cada uma destas pontas, agora, espelha um sol tímido. 
É sabido que nem mesmo o sol exuberante alcançará a parede, o limo e o vômito formado. Não encontrará a calha, apenas a chuva será capaz de mudar-lhe as características. O sol desconhecerá as figuras geométricas desenhadas. Ele apenas intensificará as cores dos cacos de vidro, aqueles que impõem limites aos que vêm e vão.

Dhenova
28/07/2013

Um comentário:

  1. Texto imperdível, assim como esse espaço Amada, cheio de pérolas. Estava com saudades. Beijos.

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