20 de maio de 2013

Guardado no Coração


Guardado no coração

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O fato aconteceu na véspera de Natal. Era início de tarde, um dia cinza em que árvores balançavam-se desamparadas, pessoas se esbarravam na calçada em frente a loja de brinquedos. Lá dentro, eu organizava prateleiras e vi, por debaixo da gôndola coberta de caminhõezinhos de plástico, os sapatos vermelhos. Eram de saltos não muito altos e pararam em frente a infinidade de quebra-cabeças. Curiosa, levantei e pude ver a mulher dos sapatos, ela vestia uma saia creme, acima do joelho, e uma camisa verde escura. Trazia nas mãos uma bolsa dourada, que espelhava os cabelos curtos e loiros. Um colar fininho de prata emoldurava um pescoço cujas marcas do tempo definiram-se em rios, que escorriam suaves, marcados pela correnteza apenas no meio. Alguns desses rios estavam desenhados ao redor dos olhos, e terminavam num céu azul, bem no centro de tudo.
A mulher não me olhou, continuou buscando, entre as caixas retangulares, o quebracabeça que mais lhe agradava. Entre um trem preto sobre trilhos e uma montanha com neve, que segurava indecisa, a dona dos sapatos vermelhos escolheu uma paisagem em tons amarelos, cuja borboleta azul pousava sobre uma rosa. Na caixa, a recomendação era para mais de seis anos. Então, a mulher se encaminhou para o fundo da loja. Eu fui atrás, o perfume floral conseguiu me hipnotizar, e pensei em absinto, mato fechado, tons de verão.
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Uma menina quebrou o feitiço e me fez parar. Ela queria saber quanto custavam os ursos coloridos. Os olhos doces traziam pestanas tão longas que batiam nas bochechas rosadas. Sorri para ela com carinho ao perceber que talvez não tivesse dinheiro para comprá-los, já que sua mãe, mais adiante, escolhia brinquedos que estavam em promoção, e os ursos, com suas músicas natalinas, custavam o triplo do preço. Eu falei para menina, baixinho, o valor. Ela correu para a mãe, que meneou a cabeça num não. Os olhos da menina entristeceram, os da mãe também, assim como os meus. Neste instante, a mulher dos sapatos vermelhos, que observava a cena, aproximou-se de mim. Ela pegou um ursinho cor de rosa da prateleira, retirou da bolsa duas notas e me deu. Antes de se virar e sair pelo corredor, sorriu. No sorriso meigo, imaginei o semblante da mãe que nunca tive, que os vários parentes, vizinhos, tantas casas, nunca supriram, a face de uma mãe de verdade. Foi aquele sorriso que guardei no coração.

Dhenova

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