27 de maio de 2013

Cais


CAIS

“Meu coração...
A calma de um mar
Que guarda tamanhos segredos
De versos naufragados
E sem tempo...”
(Porto Solidão – Jessé e Elifas Andreato)

Na penumbra, Amadeo, sentado na única poltrona da sala, tem uma xícara de café nas mãos e, nas pernas, uma caixa de madeira escura com as iniciais M & A. Ela está fechada com um cadeadinho dourado. Ele olha para a direita e vê o quadro de nós de marinheiro, com fundo azul-escuro, que ganhou de Frida ao completar vinte e sete anos. Em cima do quadro, outro, com uma medalha amarelada de honra ao mérito.
Amadeo suspira e bebe o resto do café. À sua esquerda, está a estante clara de pés grossos. Nela, na parte superior, alguns clássicos da Literatura, três livros de Filosofia e vários de Meteorologia estão agrupados em ordem alfabética. Logo abaixo, o rádio quadrado já não funciona. No meio, alguns porta-retratos com bordas prateadas. No primeiro, da direita para a esquerda, uma mulher loira, de olhos azuis e de expressão séria está na frente dos degraus de uma casa de alvenaria branca, com um bebê nos braços; no segundo, a mesma mulher, no mesmo lugar, tem agora um bebê vestido de rosa num dos braços e um menino loirinho na outra mão; no terceiro, a mesma mulher, outro bebê e uma menina e um menino de cada lado. Entre os porta-retratos, uma garrafa está na horizontal escorada por pequenos calços de borracha, com uma miniatura de escuna dentro, montada a partir de palitos de picolé. Num cartão, ao lado da garrafa está escrito: “Para o papai, Júnior”. Ainda na parte do meio da estante, à direita dos porta-retratos, uma bússola de latão tem também uma mensagem, com letra quase ilegível: “Para o papai, Paola”.
Amadeo levanta-se carregando a xícara numa das mãos e, na outra, a caixa de madeira. Vai até a cozinha, coloca a caixa sobre a mesa de fórmica cinza. À esquerda, a pia fica sob a janela basculante. Depois de lavar a xícara e encaixá-la, com cuidado, no escorredor, seca as mãos e dá uma olhada na rua. Já amanhecia. Olha de volta para a caixa. A única coisa que brilha é o cadeadinho dourado. Amadeo vai, então, até o quarto. A cama de solteiro está coberta por uma colcha marrom impecavelmente esticada. Ao lado, o criado-mudo, também marrom, tem em cima um relógio de mármore branco. Os ponteiros pararam há anos. Do outro lado, um armário escuro de madeira. Abre a porta e, numa das prateleiras, está um porta-jóias vermelho e dourado sem tampa. Amadeo pega-o e espalha as poucas coisas sobre a colcha: um crucifixo de prata, apenas um dos brincos de pérolas, uma aliança, um cordão dourado com um pingente de camafeu e uma chavezinha. Amadeo levanta o cordão à altura dos olhos. Com esse movimento, traz junto a aliança de ouro, que rola pelo tecido marrom e cai no piso irregular. O velho homem coloca o camafeu na palma da mão junto com a chave e volta à cozinha.
Solta a jóia sobre a mesa antes de abrir a caixa. Dentro dela, no forro vermelho, cartões-postais estão amarrados por um atilho. Sobre eles, um peso de papel de vidro encerra a imagem de um navio numa tempestade. Amadeo pega o peso e sacode-o. As ondas agitam-se. Deixando o peso de lado, ele retira o atilho dos cartões. Pega o primeiro que mostra uma avenida iluminada e vira-o. A letra miúda é clara: “Montevidéo, 04-08, Meu amor, as noites são longas e frias. Procuro em vão os teus braços. Em breve, estarei voltando. De quem te ama incondicionalmente, Madalena”. Ele coloca o postal ao lado do cordão e pega o segundo, uma Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes: “Porto Alegre, 22-09, Meu amor, escolhi esse cartão no momento em que ouvi o apito de um navio. A saudade me corrói. Com amor, tua Madalena”. Mesmo ritual e ele pega o terceiro, a vista aérea de uma cidade: “São Paulo, 22-10, Amor, me sinto tão perdida nessa cidade tão grande. São tantos os lugares, as apresentações. Às vezes, nem sei quem sou. Com saudades, Madalena”. O quarto postal, a imagem do Cristo Redentor: “Rio, 15-01, Amadeo, desculpe não ter escrito antes. Tenho feito três apresentações por noite. O pessoal já está me esperando. Saudades, Madalena”. O quinto, a Estátua da Liberdade ao pôr do sol: “Nova Iorque, 24-05, Amadeo, mal tenho tempo de comer. Estou apressadíssima e escrevendo no intervalo. Beijos, Mad.”. E o último, da Torre Eiffel: “Paris, 06-11, Espero que você esteja bem, M.”.
Amadeo recoloca os cartões na caixa sem o atilho; pega o peso de vidro e deposita-o sobre eles, as ondas cobrem o navio; e, por último, estende o cordão ao lado, num pequeno espaço que sobra. O camafeu fica com a figura para baixo. Fecha a caixa no mesmo momento em que Francisco, o dono da olaria, que mora em frente, bate na porta.
— Amadeo? Já tem um carreto!
Amadeo dá uma última olhada para a caixa, abre a porta e sai.

Dhenova

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