31 de maio de 2013

Amanhecer sem sentido, com Emanuel Lomelino

Amanhecer sem sentido


Quando sofre o pobre coração
por um amor cruel, malfadado
sentimento triste e calado
transborda no peito, a solidão

Os passos dados perdem brilho
não há destino nas caminhadas
quanto mais pedras pisadas
menos visível fica nosso trilho

Das lágrimas de dor e pranto
escorrem, memória e desilusão
envoltas num negro manto
como atos de fé e de contrição

A vida segue atrás dos montes
num amanhecer descolorido
destinos atravessam as pontes
e o amor já não faz mais sentido


Dhenova e Emanuel Lomelino
23/05/2013


Emanuel Lomelino

Blog: Amador do Verso
http://amadordoverso.blogspot.com.br/

29 de maio de 2013

Asas Azuis, com Danniel Valente

Asas Azuis


Há uma infinita tristeza
que vem do luar
e uma distinta beleza
que está no amor.

Toda tristeza de poeta
converte-se em lua nova,
como a beleza pousada no voo da borboleta
assim, sem prova.

A borboleta, a paixão não nega
num esvoaçar errante
e suas lástimas fazem parte do dilema.

O poeta doa-se... numa entrega
num perdoar constante
e suas lágrimas já são partes do poema.

E esse som, uma orquestra na floresta
ensina a borboleta
a esperar mais do universo.

E o dom de edificar a palavra
devolve ao poeta,
asas azuis de borboleta livre...
a sina de ser maior que seus versos.


Dhenova E Danniel Valente

27 de maio de 2013

Cais


CAIS

“Meu coração...
A calma de um mar
Que guarda tamanhos segredos
De versos naufragados
E sem tempo...”
(Porto Solidão – Jessé e Elifas Andreato)

Na penumbra, Amadeo, sentado na única poltrona da sala, tem uma xícara de café nas mãos e, nas pernas, uma caixa de madeira escura com as iniciais M & A. Ela está fechada com um cadeadinho dourado. Ele olha para a direita e vê o quadro de nós de marinheiro, com fundo azul-escuro, que ganhou de Frida ao completar vinte e sete anos. Em cima do quadro, outro, com uma medalha amarelada de honra ao mérito.
Amadeo suspira e bebe o resto do café. À sua esquerda, está a estante clara de pés grossos. Nela, na parte superior, alguns clássicos da Literatura, três livros de Filosofia e vários de Meteorologia estão agrupados em ordem alfabética. Logo abaixo, o rádio quadrado já não funciona. No meio, alguns porta-retratos com bordas prateadas. No primeiro, da direita para a esquerda, uma mulher loira, de olhos azuis e de expressão séria está na frente dos degraus de uma casa de alvenaria branca, com um bebê nos braços; no segundo, a mesma mulher, no mesmo lugar, tem agora um bebê vestido de rosa num dos braços e um menino loirinho na outra mão; no terceiro, a mesma mulher, outro bebê e uma menina e um menino de cada lado. Entre os porta-retratos, uma garrafa está na horizontal escorada por pequenos calços de borracha, com uma miniatura de escuna dentro, montada a partir de palitos de picolé. Num cartão, ao lado da garrafa está escrito: “Para o papai, Júnior”. Ainda na parte do meio da estante, à direita dos porta-retratos, uma bússola de latão tem também uma mensagem, com letra quase ilegível: “Para o papai, Paola”.
Amadeo levanta-se carregando a xícara numa das mãos e, na outra, a caixa de madeira. Vai até a cozinha, coloca a caixa sobre a mesa de fórmica cinza. À esquerda, a pia fica sob a janela basculante. Depois de lavar a xícara e encaixá-la, com cuidado, no escorredor, seca as mãos e dá uma olhada na rua. Já amanhecia. Olha de volta para a caixa. A única coisa que brilha é o cadeadinho dourado. Amadeo vai, então, até o quarto. A cama de solteiro está coberta por uma colcha marrom impecavelmente esticada. Ao lado, o criado-mudo, também marrom, tem em cima um relógio de mármore branco. Os ponteiros pararam há anos. Do outro lado, um armário escuro de madeira. Abre a porta e, numa das prateleiras, está um porta-jóias vermelho e dourado sem tampa. Amadeo pega-o e espalha as poucas coisas sobre a colcha: um crucifixo de prata, apenas um dos brincos de pérolas, uma aliança, um cordão dourado com um pingente de camafeu e uma chavezinha. Amadeo levanta o cordão à altura dos olhos. Com esse movimento, traz junto a aliança de ouro, que rola pelo tecido marrom e cai no piso irregular. O velho homem coloca o camafeu na palma da mão junto com a chave e volta à cozinha.
Solta a jóia sobre a mesa antes de abrir a caixa. Dentro dela, no forro vermelho, cartões-postais estão amarrados por um atilho. Sobre eles, um peso de papel de vidro encerra a imagem de um navio numa tempestade. Amadeo pega o peso e sacode-o. As ondas agitam-se. Deixando o peso de lado, ele retira o atilho dos cartões. Pega o primeiro que mostra uma avenida iluminada e vira-o. A letra miúda é clara: “Montevidéo, 04-08, Meu amor, as noites são longas e frias. Procuro em vão os teus braços. Em breve, estarei voltando. De quem te ama incondicionalmente, Madalena”. Ele coloca o postal ao lado do cordão e pega o segundo, uma Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes: “Porto Alegre, 22-09, Meu amor, escolhi esse cartão no momento em que ouvi o apito de um navio. A saudade me corrói. Com amor, tua Madalena”. Mesmo ritual e ele pega o terceiro, a vista aérea de uma cidade: “São Paulo, 22-10, Amor, me sinto tão perdida nessa cidade tão grande. São tantos os lugares, as apresentações. Às vezes, nem sei quem sou. Com saudades, Madalena”. O quarto postal, a imagem do Cristo Redentor: “Rio, 15-01, Amadeo, desculpe não ter escrito antes. Tenho feito três apresentações por noite. O pessoal já está me esperando. Saudades, Madalena”. O quinto, a Estátua da Liberdade ao pôr do sol: “Nova Iorque, 24-05, Amadeo, mal tenho tempo de comer. Estou apressadíssima e escrevendo no intervalo. Beijos, Mad.”. E o último, da Torre Eiffel: “Paris, 06-11, Espero que você esteja bem, M.”.
Amadeo recoloca os cartões na caixa sem o atilho; pega o peso de vidro e deposita-o sobre eles, as ondas cobrem o navio; e, por último, estende o cordão ao lado, num pequeno espaço que sobra. O camafeu fica com a figura para baixo. Fecha a caixa no mesmo momento em que Francisco, o dono da olaria, que mora em frente, bate na porta.
— Amadeo? Já tem um carreto!
Amadeo dá uma última olhada para a caixa, abre a porta e sai.

Dhenova

26 de maio de 2013

Emanuel















(para o querido poeta lusófono Emanuel Lomelino)

E manuel é assim
M etamorfose em letras
A utêntico até o fim
N áufrago de um cometa
U m ser em carmim
E rudito poeta
L omelino enfim.

Dhenova

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Espera

(imagem retirada da internet)

Espera


Quero a mão aberta
subida livre ao íntimo
em total descoberta
alcançarmos o cimo

Quero a língua áspera
em cada reentrância
aguentar a espera
e toda esta ânsia

Quero na boca o salgado
gosto ocre de pele
quero ver-te curvado
por um momento breve

Quero o choque de pernas
roçar de nossos corpos
numa luta eterna
entre a dor e o gozo.


Dhenova
26/05/2013

23 de maio de 2013

Súplica à musa, com Emanuel Lomelino

Súplica à musa, com Emanuel Lomelino


Da vil escuridão envolvente
onde, agrilhoado, sou o réu
quero libertar-me e imponente   
construir meu próprio mausoléu

Desejo que a lua crescente
mova-se rápida, leve no céu
enquanto a bruma, tão silente
fuja lépida do campo ao léu

Mostra-me, oh lua, luz brilhante
para sempre serás grande dama
de todas as minhas tolas manhas

Faz de mim, eterno caminhante
sem remorso nem pena ou drama
e ilumina minhas tristes façanhas.


Dhenova e Emanuel Lomelino
23/05/2013

Amador do Verso, blog do poeta http://amadordoverso.blogspot.com.br/

20 de maio de 2013

Guardado no Coração


Guardado no coração

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O fato aconteceu na véspera de Natal. Era início de tarde, um dia cinza em que árvores balançavam-se desamparadas, pessoas se esbarravam na calçada em frente a loja de brinquedos. Lá dentro, eu organizava prateleiras e vi, por debaixo da gôndola coberta de caminhõezinhos de plástico, os sapatos vermelhos. Eram de saltos não muito altos e pararam em frente a infinidade de quebra-cabeças. Curiosa, levantei e pude ver a mulher dos sapatos, ela vestia uma saia creme, acima do joelho, e uma camisa verde escura. Trazia nas mãos uma bolsa dourada, que espelhava os cabelos curtos e loiros. Um colar fininho de prata emoldurava um pescoço cujas marcas do tempo definiram-se em rios, que escorriam suaves, marcados pela correnteza apenas no meio. Alguns desses rios estavam desenhados ao redor dos olhos, e terminavam num céu azul, bem no centro de tudo.
A mulher não me olhou, continuou buscando, entre as caixas retangulares, o quebracabeça que mais lhe agradava. Entre um trem preto sobre trilhos e uma montanha com neve, que segurava indecisa, a dona dos sapatos vermelhos escolheu uma paisagem em tons amarelos, cuja borboleta azul pousava sobre uma rosa. Na caixa, a recomendação era para mais de seis anos. Então, a mulher se encaminhou para o fundo da loja. Eu fui atrás, o perfume floral conseguiu me hipnotizar, e pensei em absinto, mato fechado, tons de verão.
.
Uma menina quebrou o feitiço e me fez parar. Ela queria saber quanto custavam os ursos coloridos. Os olhos doces traziam pestanas tão longas que batiam nas bochechas rosadas. Sorri para ela com carinho ao perceber que talvez não tivesse dinheiro para comprá-los, já que sua mãe, mais adiante, escolhia brinquedos que estavam em promoção, e os ursos, com suas músicas natalinas, custavam o triplo do preço. Eu falei para menina, baixinho, o valor. Ela correu para a mãe, que meneou a cabeça num não. Os olhos da menina entristeceram, os da mãe também, assim como os meus. Neste instante, a mulher dos sapatos vermelhos, que observava a cena, aproximou-se de mim. Ela pegou um ursinho cor de rosa da prateleira, retirou da bolsa duas notas e me deu. Antes de se virar e sair pelo corredor, sorriu. No sorriso meigo, imaginei o semblante da mãe que nunca tive, que os vários parentes, vizinhos, tantas casas, nunca supriram, a face de uma mãe de verdade. Foi aquele sorriso que guardei no coração.

Dhenova

18 de maio de 2013

O moço e o anjo...


O moço e o anjo...

Então, todos os dias, no mesmo horário,  o moço recebia a visita de um anjo. Não, não era do tipo ‘angelical’, daqueles com asinhas coloridas e tudo, não, também não era do mal, era apenas anjo, travestido de poeta, anjo negro, é certo, meio às avessas. E este ser etéreo trazia com ele, letras, letras desenhadas num caderno de capa verde, em folhas recicladas sem linhas, trazia sua poesia e declamava, cantava pra o moço, que quieto ficava, apenas calava, sorria, e o anjo se ia... e os dias passando, meses, anos... um dia, o ser encantado não apareceu. O moço estranhou, buscou no íntimo, por onde andaria a presença celestial, encontrou na gaveta do quarto o caderno verde, mas misteriosamente não havia poesia, as letras sumiram, as folhas estavam em branco, o moço entristeceu, sentiu que sua inspiração tinha morrido, na hora também seu coração endureceu, ficou sem rumo, meio que perdeu o sentido, mas o moço não entendeu o motivo... os dias passaram, meses e anos... um dia, o moço acordou com um sopro, sentiu no rosto o morno, cheiro de menta, e abriu os olhos, viu o anjo, ser nada alado, sorrindo para ele sentado na cama com outro caderno, agora com a capa cor de rosa, dentro as folhas todas escritas, transbordava a prosa e fazia companhia letras e letras tortas. O moço não se importou, sorriu aliviado, permitiu que o ser alado deixasse embaixo do seu travesseiro a mais terna mensagem, a de pura amizade. E se deu o laço. Hoje o moço ainda sorri, e os cadernos passaram a ser vários.

Dhenova

15 de maio de 2013

Mãos

Mãos

Quando as mãos se encontram leves
impossível não ouvir as batidas
ao redor a ventania arrefece
e do coração podem ser ouvidas

no peito o ar quase falta, breve
sorrisos perfeitos, em devaneios
dedos entrelaçam-se, elo forte
acabam-se todos os anseios

olhares que se cruzam intensos
bocas secas, vermelhas as bochechas
mundos diferentes e imensos
são coisas do cupido e suas flechas

e as mãos permanecem unidas
esperando o feliz final da história
numa viagem só de ida
o amor sincero fica na memória.

Dhenova
15/05/2013



Pétalas


Pétalas

Recebo tuas flores
rosas perfumadas
alma em cores
nada fragmentada

Sorvo teu beijo
no amanhecer cinzento
o sol então rompe a noite
colore de ouro o momento

Abraço teu corpo
companheiro querido
sei das tuas dores
vem, que te dou abrigo.

Dhenova

Sussurros ao ouvido


Sussurros ao ouvido


Será que
sussurrar ao ouvido
palavras bobas, sem nexo
mas cheias de tesão
é tão absurda
quanto à história
dos dois e dois
e três...
sei lá qual o certo?
Pensando bem,
sou refém.
Não protesto.

Será que
sussurrar ao ouvido
uma eterna cantiga
e deixar que o coração se perca
no fulgor da mão amiga
ainda que amanheça
fora de hora
e que no momento de ir embora
digas 'tudo bem'
'até a semana que vem'?

Mas com voz insegura
vou murmurar ao ouvido
que sem tua emoção não vivo
e te agradecer
por estar recebendo tanto
deste meigo clichê...

E então
vais deixar que permaneça
só o sentimento mais puro
afinal, antes de tudo
somos amigos
e paixão entre amigos
não tem futuro.


Dhenova

13 de maio de 2013

Depoimento


Depoimento

Confusão é meu sobrenome
busco na foto do quadro
paciência pra não beber desta fonte
não, não quero os mesmos atos
fujo da simplicidade de ser estrela
puxa, eu queria só os cometas
não, não anseio as mentiras
preciso da caricata verdade
coisas estranhas da vida, eu sei
bem sabes, sou feita de metades

Paixão é nome do meio
enquanto a procura continua igual
não quero meias medidas
desejo ainda o sobrenatural
é, eu te tenho nas noites frias
e quando perco o sono
ah, as madrugadas são tão cruas
o telefone vibra, quase chora
eu atendo e ouço tua voz
e não me arrependo na hora

Ilusão é meu nome completo
acredito piamente no amor e nas histórias
enquanto cantas a insana melodia
sinto-me mais do que viva
não sei se assumo esta insanidade
ou se te escondo na escuridão de vez
sei hoje que sou feita também de maldade
é, é a existência e suas inconstâncias
perdoe-me, necessito dessa emoção? Talvez...
O difícil é trazer isso pra realidade.


Dhenova

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