Faço versos com o vento, areia do deserto; minha densidade eu mesma aguento, não sou sexo frágil; imaturidade não concebo, indiscutível é o intento, todavia, quando a maré é alta, o poema sai aos avessos, meio sem forma, mas no conteúdo, ah, ele arrasa e não deforma.

26 de março de 2013

Eu morro dançando


Eu morro dançando

E me dói o peito
busco ar na fumaça
eu vou meio sem jeito
quero tirar a mordaça

E valsar à lua
encontrar as estrelas
ainda que nua
esquecer os cometas

E voltar à base
procurar diamantes
refazer todas fases
contar os instantes

E escalar montanhas
alcançar o pico
enfatizar as manhas
correr os riscos

E morrer dançando
o mais torto tango
continuar amando
mesmo que seja estranho.

Dhenova

23 de março de 2013

Conversão


CONVERSÃO

O hall de entrada do apartamento tem a luz acesa. No chão, o carpete, antes cinza, mostra manchas redondas mais escuras, quase pretas. O mofo nas paredes forma figuras abstratas e caminhos sinuosos. Não há móveis no hall de entrada do apartamento.
Na primeira porta à direita do hall de entrada do apartamento está a cozinha. A parede da esquerda mostra a marca deixada por uma geladeira e um armário e, em frente, a de uma mesa com um fogão de duas bocas. O cheiro de gordura ainda pode ser percebido. Não há móveis na cozinha do apartamento. 
Na segunda porta à direita do hall de entrada do apartamento está um dos quartos. Nesse quarto não existem marcas nas paredes, apenas o cheiro do talco para bebê ainda permanece. Não existem móveis nesse quarto.
Após a primeira e a segunda porta aparece a sala, toda distribuída à direita. Na parede que segue o corredor há marcas de três quadros retangulares. Na parede em frente, abaixo da janela de madeira, manchas de pó no branco amarelado mostram onde estava o sofá e as duas poltronas. Não há móveis na sala do apartamento.
Seguindo o hall de entrada do apartamento, na porta à esquerda, está o banheiro. Um sabonete e um xampu, já abertos, estão no chão. Uma barra de metal apara os puxadores de plástico. O vaso sanitário está com a tampa levantada. Não há espelho no banheiro do apartamento.
Na última porta do hall do apartamento está o segundo quarto. Nele, uma cama de solteiro, coberta apenas com um lençol, exibe um travesseiro sem fronha. No lado direito da cama, duas caixas de papelão estão fechadas. No lado esquerdo, em cima do criado-mudo, um pente e a fotografia de um bebê, vestido de rosa, estão colocados lado a lado. Não há mais móveis no segundo quarto da última porta do hall do apartamento.

A.Yunes

20 de março de 2013

Verbos de Ligação

Verbos de Ligação

pingos de saudade
lavam as ruas
daquela cidade
há no aro avermelhado
da luz dos postes
a teimosia de ser

só por ser...

gotas de fadiga
inundam os ralos
daquela avenida
há nos círculos claros
pequenas faíscas
espelhadas da lua
a imensidão de estar

só por estar...

no atrito dos pneus
os ruídos molhados
do cinza do asfalto
ecoam na janela
todas fechadas
as portas abertas
não há energia elétrica
no edifício azul
a tentação de continuar

só por continuar.

Dhenova

Geada


Geada


pássaro lento no estranho voo
busca o sol que não nasceu
frio congela alma de pronto
asas que se fecham no céu

lá embaixo, no jardim
flores murchas pela geada
esperam tímidas o fim
talvez nesta manhã perfumada

ave que busca alimento
inspira a nostalgia e sorri
voa baixo, contra o vento
encontra as flores por ali

marrom que vai tomando tudo
embarrando sentimentos
desmerecem os musgos
secam até os tormentos

o que resta é o perfume
espalhado pelos girassois
que embriaga a triste ave
enquanto ela espera o sol.


Dhenova

19 de março de 2013

Desterro

Desterro

E eu peguei as duas malas
fechei a porta com força
esquecida das tolas desculpas
com coragem, enfrentei à rua

Ouvi canções, interessantes hinos
li revistas, jornais e artigos
distanciei-me dos insistentes sinos
fiz questão de olvidar os vícios

E no meu escolhido desterro
vislumbrei a alvorada
fiz da minh'alma sossego
não pensei em mais nada

Livrei-me, enfim, do fetiche tolo
ser escrava na cama e na vida
sofrer por amor é coisa de bobo
encarei, tranquila, a despedida.

Dhenova

A ternura de um dia


18 de março de 2013

A Folha e o Rio


A Folha e o Rio

Era uma folha amarelada
de caule endurecido
equilibrava-se aos ventos fortes
com sorriso aberto, destemido
amava a brisa da madrugada
com seus tons graves
pios e hinos...

esperava, só, a morte
na correnteza do rio

Rio que levava galhos mortos
e tantas oferendas
que lambia a margem
recolhendo detritos
e no fundo arrastava o lodo
rio cruel, insano, aflito...

esperava, quieto, a sorte
queda livre e vil

ah, correnteza
esperava a folha corajosa
apostava na violência das águas
contava com o tempo
enquanto a folha a olhava chorosa
sabendo do caminho e suas trilhas
e retardava o movimento.

Dhenova

13 de março de 2013

Salomé



Sou poeta


Sou poeta

sou poeta quando chove
gotas frias na janela
escorrem tão tímidas
brindam de luzes a cela

sou poeta quando a lua
chega mansa no horizonte
escrevo frases cruas
absorvo o instante

sou poeta quando o vento
arremassa-se desvairado
grita surdo os lamentos
espalha-se livre pelo prado

sou poeta quando o sol
brilha quente no quarto
esparrama-se no lençol
mostra claro o retrato

sou poeta quando piso
em terreno sagrado
nua e de pés descalços.

Dhenova

11 de março de 2013

Um dia


Um dia


Se um dia eu perder o rumo
numa destas esquinas frias
espero que a sombra do muro
não me faça de arredia

Se um dia eu ganhar o asfalto
e esquecer o tal beco escuro
vou querer a emoção no alto
e deixar a traição pra vida

Se um dia eu recuperar a dança
e encontrar de vez a esperança
então a vida será completa
repleta de sons, tons
e poesia à beça.


Dhenova

Vermelho e Vinho


Vermelho e Vinho


e o vinho do vestido
fez o contraste
com veneno do bicho
escorria pelo pescoço
alvo da fera
almeja a boca
da tímida donzela

e o vinho do copo
fez a diferença
esquecida da crença
a moça viu-se nua
exposta na brancura
tão tola e crua

e o vinho da pele
umedeceu-lhe as entranhas
vermelhas de paixão
o bicho e a donzela
fizeram o pacto
o bicho e a donzela
macho e fêmea.


Dhenova

9 de março de 2013

Jogo de Xadrez


Jogo de Xadrez


A tua torre
atacou a minha fortaleza
enfraqueceu as defesas

Os peões perderam-se
nos valos
fugiram pela mata
buscaram refúgio

O cavalo deu o pinote
quis o galope
a ventania

Meu rei fazia tempo
abandonara o posto
perdido em pensamentos

E tua rainha
ficou lá sentada
nada fez pra te deter

Se fosse eu
te matava (como fiz)
de beijos
até o amanhecer.

Dhenova
agosto/2009

8 de março de 2013

Final de Estação


Final de Estação


Mais uma estação chega ao fim
Fica no ar apenas a brisa fria
as folhas debruçam-se em desordem
ao redor dos bancos da praça
e nada mais existe, nada

Mais uma poesia inacabada
deixa o olhar triste, opaco
as cores murcham nos vasos
e a solidão que nunca foi aprendiz
promete mais um momento gris

Mais uma primavera em mim finalizada
agora é apenas limpar os arredores
ajoelhar no jardim bem agasalhada
e enfim replantar todas as flores.


Dhenova

7 de março de 2013

Sina


Sina


Eu vejo a montanha mais alta
o pico branco da neve
o voo da ave de rapina
plumagem negra e leve

Quem sabe da vida que trago nos olhos?

Eu sinto a brisa fria do mar cinzento
sem maresia, sem ira
o pôr do sol cada vez mais lento
e a rotina do dia a dia

Quem sabe do amor que carrego no peito?

Eu quero o corpo rijo e quente
o beijo de adeus molhado
nesta relação tão inerente
pura sedução e pecado

Quem sabe da dor, do calor e desejo?

Eu escrevo em linhas apagadas
todo o sentimento que me vem
com a pena já adulterada
sei que não conto com ninguém

Quem sabe da poesia que cala nos dedos?

Eu não sei.


Dhenova

6 de março de 2013

Procura


Procura


Eu te procuro
no amanhecer
e fico buscando
o teu bem querer

Eu te procuro
no perfume das rosas
e fico imaginando
carícias de outrora

Eu te procuro
na imensidão das águas
e fico lembrando
das madrugadas

Eu te procuro
no brilho das estrelas
e fico querendo
teu corpo inteiro

Eu te procuro
mas nunca te acho
quando te encontro
me perco no vácuo.


Dhenova - maio/2009

Dueño de mi silencio



5 de março de 2013

Foi então que eu vi...



Foi então que eu vi...


Foram tantas as janelas
vermelhas, verdes
azuis, amarelas
cobertas de flores

foram tantos os riscos
em gestos absurdos
trilhos imundos, impuros
vistos por ali sobre o muro

foram tantas as farras
canções pela madrugada
céu aberto, estrelas raras
tanta gente (in)feliz

foram muitos os erros
apostas em crenças tolas
pouca noção, desespero
solidão crescendo em bolhas

foi então que eu vi
as janelas da vida
tão coloridas
e soube quando partir.


Dhenova

4 de março de 2013

Coração de Vidro


Coração de Vidro


Arranho o vidro
mas sem desespero
viver muito é vício
muro tingido de preto

tenho asas coloridas
que garantem o sonho
tenho unhas azuis
que marcam o contorno

coração desenhado no vidro
um aceno à lua
adeus sem sentido
deixou minh'alma nua...


Dhenova
20/1/2011

1 de março de 2013

E se o sol batesse na janela do meu quarto?


E se o sol batesse na janela do meu quarto?

Se o sol batesse na janela do meu quarto
eu permitiria a sua entrada mesmo bizarra
arriscaria ser queimada só em fogo farto
e cantaria intensamente tal qual cigarra

E a folia de ser livre emolduraria o pranto
que se tornaria apenas um outro tolo clichê
nem tão belo ou tão singelo, sem encanto
porém aprisionado no eterno/terno querer

e depois que Apolo invadisse o aposento
depois de penetrar cada poro e saliência
eu abriria a porta dos fundos no intento

De deixar escapar o brilho insano da poesia
de compartilhar com os outros tal momento
no instante nada secreto de amor e de alforria.

Dhenova
08/02/2010