27 de fevereiro de 2013

A Guardiã



A GUARDIÃ

"Varium et mutabile semper femǐna" - Vergílio

Sempre me enoja o cheiro de água sanitária das salas de esperas. Aquela sensação de limpeza artificial. Olho ao redor e vejo, por trás de cada cadeira, embaixo do tapete, atrás dos quadros baratos, a existência de milhares de germes que jamais serão exterminados.
É a terceira vez que o rapaz no canto da sala me observa. Deve imaginar o que uma mulher como eu faz num lugar como este. Encolho-me um pouco com o pensamento, porém mantenho a cabeça bem erguida.

— Orestes Martins! ― diz um homem que sai de um corredor estreito. Ele olha para mim.
Levanto-me e seguro a bolsa de camurça cinza com mais força. Quantos anos teriam se passado? Um, dois, quinze...? Não lembro! Sigo o homem pelo corredor até uma outra sala um pouco maior. O cheiro de água sanitária é mais forte. Mais outro corredor e dobramos à direita. As grades são pintadas de cinza. Esperamos alguns segundos até que um senhor, de uniforme branco, venha abri-las. As grades se fecham num estalo, deixando o homem do outro lado. Deixo cair a bolsa. O senhor do uniforme me olha e abaixa-se para pegá-la.
— Não precisa ter medo, senhora — diz baixo. — No fundo são pessoas boas!
"Eu sei!" tenho vontade de gritar "só eu sei!" Fico calada, enquanto ele abre uma porta de madeira.

"Orestes envelheceu!", penso quando o vejo num dos sofás que, outrora, foram verdes. Ele levanta-se, vem em minha direção e me envolve num abraço.
— Elena!
Sinto arderem meus olhos e nos abraçamos forte. Depois desse instante, ele me guia até o sofá, mas prefiro a poltrona, e fico de costas para a janela.
— Conte-me sobre sua vida, irmã. — ele pede docemente.
Como contar que mal me lembro dos anos que se passaram depois do ocorrido? Como explicar que continuei com minha vida, encontrei um marido maravilhoso, tão parecido com nosso pai, e que tenho filhos que me amam e confiam em mim, sem ser cruel? Todavia, a expressão de Orestes é de tal ansiedade que me ouço falando algumas coisas. Ele assimila tudo naturalmente. Pergunto-lhe sobre sua vida. Ele ri. Um riso seco. Eles, os que cuidavam para que nada fugisse do normal, mantinham uma série de atividades. Orestes, então, comenta sobre os trabalhos manuais, que sempre foram sua paixão. Nesse momento, uma mulher entra na sala.
— Preciso que venha à enfermaria! — A minha expressão deve ter sido de desespero, pois ela continua. — É só por um momento.
Fico só na sala pintada de branco. Uma outra sala aos poucos vai aparecendo em minha mente.

Os domingos de inverno eram os que mais apreciava. Papai sentava-se na poltrona favorita e eu me enroscava em seus pés, esperando os carinhos que ele sempre fazia. Ele nunca me decepcionava e, vez por outra, passava a mão nos meus cabelos. No sofá de couro marrom sentavam Cleonice e Cristina. Orestes gostava de ficar no chão, bem perto da televisão, embora Cleonice sempre reclamasse que isso lhe estragaria os olhos. Entre ela e Cristina havia um lugar vago. Sabíamos que era de Efigênia. Mas ninguém comentava. Fazíamos de conta que nada tinha acontecido. Todos, menos Cleonice, que periodicamente jogava na cara de papai que a culpa era dele. "Você matou a minha filha!" Ela dizia sem dó. Ele, por sua vez, apenas comentava que acidentes aconteciam, que ele havia bebido um pouco, mas o outro bebera muito mais. E o assunto morria. Só eu sabia o quanto ela, minha odiosa mãe, queria o mal de papai. Porém, algo a refreava.
Tudo continuaria assim se não fosse o pintor. O maldito pintor. Egídio, esse era o seu nome. Papai queria arrumar a casa antes das festas de final de ano. Quando vi o jovem homem, soube que traria confusão e desarmonia ao nosso lar. O macacão de brim muito justo, a pele morena, o cabelo comprido, a risada sonora. As roupas de Cleonice também se ajustaram, as saias diminuíram, a maquiagem tornara-se mais forte. Os lábios agora eram vermelhos, tão diferentes do rosa opaco de outrora. Ele a chamava de Cléo, mesmo sabendo que meu pai odiava diminutivos. Com o andamento da pintura, ela passou a ser desleixada: Cristina saía para o colégio com meias encardidas, com a camiseta mal passada; Orestes já não se alimentava direito e quando meu pai reclamava, ela dizia agressiva: — Faça você, Agnaldo!
Quando Cleonice decidiu arrumar um emprego pensei que papai a mataria. Eles discutiram parte da noite, enquanto eu, Orestes e Cristina ficávamos abraçados. Papai saiu vencedor daquela batalha, como deveria ter sido. A raiva que ela sentia multiplicou-se. Aparentemente as coisas se acalmaram quando Egídio terminou o serviço. Muito embora eu ainda desconfiasse das saídas matinais que ela dava. Tudo aparentava normalidade. Até o dia em que papai voltou mais cedo do trabalho. O ataque foi fatal. Foi o que disseram quando cheguei da escola.
Cléo não derramou sequer uma lágrima no enterro do homem que era seu marido, pai de seus filhos. Nem mesmo vestiu preto. Ficou lá, sentada num canto, indiferente. Como eu a odiei. Naquele momento, sabia o que deveria ser feito. Orestes, agora, era o homem da casa...

Senti mais do que ouvi os passos dele voltando.
— Desculpe-me, Elena. De vez em quando me pedem para ajudar. Acabo indo — Dá de ombros, enquanto fala. — Você está bem?
— Sim, só... lembrando — respondo muito baixo.
Ele crispa as mãos e senta, de novo, à minha frente.
— Às vezes... — pigarreia, os olhos brilham. — Às vezes, fico pensando se o que fiz foi certo. Talvez...
— Não! — o interrompo. — Você fez o que era certo! Apenas isso! — Respiro fundo, mais calma e tento tranqüilizá-lo. — Eu preciso ir agora, mas eu volto para vê-lo, certo?
— Certo — Responde, quase inaudível.
Antes de sair, olho mais uma vez para Orestes no sofá verde desbotado. A expressão é de um menino. Algo dentro de mim se parte e tenho vontade de abraçá-lo outra vez. Mas não posso agora, preciso voltar para os afazeres de casa. Meu marido espera que tudo esteja em ordem quando chegar. 

Passo pelos vários corredores e, finalmente, chego à rua. O ar não tem mais o cheiro de água sanitária. O final de semana está chegando e, com ele, finados. Preciso comprar uma coroa nova para levar ao túmulo de papai. Os outros dois, no fim do cemitério, no lugar dos indigentes, com certeza, não receberão flores.


Dhenova

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