28 de fevereiro de 2013

Sem sentido


Sem sentido

Quando uiva o vento
e os raios na hora
fazem do céu
a sua glória
Penso na força da natureza
tenho medo da certeza

Quando a vidraça
sente a pressão
não farão diferença
os golpes da emoção

Quando a água vira açoite
de repente, tudo é noite
o coração busca conforto
no copo de vinho
na leitura do livro,
no íntimo...

e, agora, lá fora
nada mais faz sentido.

Dhenova
28/11/2009

O voo do pássaro azul


O voo do pássaro azul


Busquei nas nuvens descoloridas uma rota discreta, quis ser mais do que fera, recolhi as asas, esqueci poemas, fechei as tantas portas, e outras tantas janelas, não quis o perfume da primavera, e ainda assim me feri com a brisa estranha e letal que veio de um final gris.
Tranquei o coração num cofre, sentimentos torpes, emoção estranha que não entendi, fiz um grande pacote com um vestido de organdi, e coloquei embaixo do armário... e lá esqueci.
Recortei todas as letras para a carta anônima e nela eu dizia 'eu te amo' e 'volta pra mim', mas não havia cola, o vento soprou forte, invadiu o quarto, vindo não sei de onde, espalhou tudo pelo jardim, e aí eu desisti... percebi que algumas pessoas são só superfície e que não vale a pena seguir.
Plantei flores perfumadas, imaginando um novo sol, nova morada, novo e nova, e não deu em nada, vi a página virada e compreendi. Ainda que exista sentimento, quem vive num palco nunca lamenta a falta de amor, só finge as penas enquanto busca alívio para o ego pisando em cima das flores que ainda não desabrocharam... e continuei.
Colhi lindas rosas amarelas sem perfume, eram de plásticos no final e eu nunca soube o que aconteceu com as naturais, mas deixei assim, melhor replantar outro jardim, não adianta insistir quando a terra seca não produz mais nenhum fruto, não há futuro... e agora voo sozinha, asas rentes ao chão, sou pássaro azul prata, não busco mais nenhuma adaga. Agora aprendi, a solidão é meu caminho, sou pássaro fora do ninho, sou feliz assim.


Dhenova

Amanhecer bucólico


Amanhecer bucólico

Vi o sol nascer tímido
por entre nuvens cinzentas
descobri que o amor é só uma lenda

vi o quadro pintado
por um pintor em agonia
senti que a paixão é só ladainha

vi o verde gravado
por um traço tão torto
entendi que a vida é um esboço

vi o rio desenhado
por mãos livres e tímidas
compreendi que a dor é fantasia

num amanhecer bucólico
encontrei a paz almejada
percebi que a ida estava marcada.


Dhenova

Não me ofereça flores


Não me ofereça flores


Não me ofereça flores
nem mesmo rosas
ainda que vermelhas
não me venha com prosa

não me ofereça as cores
trago chagas abertas
nas mãos as dores
de tantas descobertas

não me ofereça os braços
nem se ajoelhe, ser alado
posso tropeçar no salto
e não negar o abraço

não, não me ofereça nada
espere que eu cure
a alma tão machucada
para encontrar o lume.


Dhenova

27 de fevereiro de 2013

Barcos em Gris de Payne


Barcos em Gris de Payne

Os barcos brilham na noite azulada, brilham à luz da lua, redonda, enorme figura que está desenhada num céu sem estrelas... não que elas não estejam ali, estão sim, apenas escondidas pela neblina, ou talvez sejam apenas as lágrimas que turvam minha visão... sei também que, em breve, elas terminarão... não, não as estrelas, as lágrimas serão secas, talvez por um abraço apertado, um beijo que espante a solidão, um carinho sincero, um 'eu te venero'... coisas assim... mas os barcos, eles ainda brilham na noite de lua cheia e há um farol que ilumina o caminho... e embora a noite pareça um quadro triste, no fundo é apenas isso: um quadro pintado com tinta à oleo, com muito gris de payne como fundo... é só a vida que continua seu curso.

Dhenova

Estou...


Estou...

Estou entre o pingo que cai, orvalho gelado, e o ar úmido da laguna, e, além, o horizonte cinza azul escuro vem trazendo o amarelado, os primeiros raios do sol, e eu ali, pendurada, tão plena, vasta... quero este quadro gravado, pintado com tinta à óleo na retina, mas também quero o cimento, pessoas andando, gritos e movimento, movimentos nem sempre elásticos, gosto daqueles mais estáticos, é eu sei... fases e faces, melancólicas como o outono as faces, fases tão cruas... ando meio que nua, travestida de adjetivos, e sem qualquer coordenação entre os períodos, ando assim, meio que nua, repetitiva e chata, ando tão desavergonhadamente calada... ando assim, querendo nada, buscando no tudo a pegada, ainda meio nua... e tão abstrata.

Dhenova
(Movimentos Elásticos ou coisas assim)

26 de fevereiro de 2013

Dança das Cores


Dança das Cores
.
Azul e amarelo
verde e vermelho
e o rosa singelo
na dança das cores
que tanto venero

Mar e sol
Floresta e fogo
e o rosa de novo
amante fogoso

Verde floresta
e amarelo riqueza
Vermelho de fogo
e azul fortaleza

Verde e amarelo
vermelho e azul
e o rosa conduz

Sol azul
Amarelo mar
Vermelho floresta
e o rosa reluz
a história da cruz

Amarelo e vermelho
Azul e Verde
Sol de fogo
Floresta no mar
e o rosa lá atrás
percepção fugaz

Azul mar
Amarelo sol
Verde floresta
Vermelho fogo
e o rosa seduz
e o todo dá luz

Fogo no mar
Floresta de sol
Azul e vermelho
Verde e amarelo
e o rosa eterno
no canto sincero...

Azul e amarelo
verde e vermelho
e o rosa singelo
na dança das cores
que tanto venero.

Dhenova
janeiro 2010

22 de fevereiro de 2013

Prisma Oblíquo


Prisma Oblíquo


Eram só figuras
geométricas
algumas curvas
assimétricas

espelhavam
algo sagrado
o caos inexato
cruzado em cores
e dores

eram só figuras
com base
escura
quartzos

eram só fases
vistas pelo
telescópio
da lua.


Dhenova

19 de fevereiro de 2013

Mais uma rosa...


Mais uma rosa...

No amanhecer azulado
deito o rosto
na areia rosada
e fico ali
parada...

sol redondo
num céu cinzento
percebo o verde
da minha haste
suspiro um lamento

e fico ali
parada...
tão apaixonada
tão nada...

na areia rosada
sol redondo
céu cinzento
e eu ali...

a todo o momento
sentir no chão
o grito

erguer, alavancar
na areia rosada
o mesmo sol redondo
e eu ali... parada

então, descobri...
era só mais um sonho
de uma rosa banida
sem jardim, sem dono.


Dhenova

18 de fevereiro de 2013

A Notícia


A Notícia


E a notícia veio como um raio
fez companhia a tantas outras
foi escrita no pequeno diário
com letra de forma, tão pouca

E o real sentimento foi parco
e ainda era o mesmo o perfume
perdido no buraco vil intento
de gente infeliz, sem costume

Então aconteceu algo estranho
a moça quis outra vez o sonho
e estendeu a mão ao relicário

ela invadiu amena o santuário
deixou doce o coração partido
fez a tola emoção sem sentido.


Dhenova

17 de fevereiro de 2013

Dança na madrugada


Dança na Madrugada

O luar brilhava no horizonte negro, por entre nuvens cinzentas, e embaixo de uma árvore um cancioneiro cantava baixinho uma canção amena... no prado, bem perto, o vulto de um casal à meia luz, de mãos dadas, olhos nos olhos, ouvia a bela canção... olhos nos olhos, mãos apertadas, sorrisos nos rostos... ainda juntos, apesar da escuridão, dançavam na madrugada, já sem solidão.

Dhenova

Noite de Estrelas


NOITE DE ESTRELAS

N oite de estrelas
O breu recebe luz
I ncansável melodia
T oca ao longe, seduz
E a madrugada vem...

D ois brilhos no céu
E ntretanto, se mantêm

E ram estrelas de mel
S alpicando ouro nas nuvens
T rocavam carícias no céu
R edesenhando as curvas
E ram estrelas coloridas
L ibertas de cores secundárias
A penas estrelas felizes
S urgindo por entre vales...


Dhenova

Soprando luzes...


Soprando luzes....


Por entre estrelas, meus sopros dourados rasgam o céu... depois do vermelho, o  gris de payne me aquieta, e penso num sussurro, após lançar mais uma borboleta, 'vá e volte pra mim'... essas borboletas, que formavam um buquê, agora voam livres, levam luzes coloridas para serem recicladas... a primeira é vermelha e vai sendo carregada pelo sopro dourado... luz vermelha viva que voa num céu muito escuro se perde nos bosques, floridos, seguros em conseguir comportá-la, esta luz vermelha, em pequenas caixas, é enterrada, como deve ser tratada, como coisa humana, orgânica... que volte pra mim já em azul, verde... ou apenas transparente... a segunda é azul, escuro, denso, até pegajoso... esta luz que voa e faz uma curva, para a direita, e volta em círculos, apenas quando eu preciso, ela faz com que eu me invada, busque, rasgue e solte palavras cortantes, ácidas, engasgadas, nada rebuscadas, pintadas em muros crus, de cimento cinza chumbo, e verdes limo... que ela, esta luz, permaneça apenas azul, daquele mais claro, clarinho, a maior parte do tempo... e assim volte pra mim... a terceira é alaranjada, uma luz que já foi dourada, agora já não tão esquálida vista pelo vidro e há partes rachadas que distorcem a imagem, e naquelas quebradas entram insetos, também o frio, o vento, paisagem que desola... que a borboleta leve para depois do monte a luz alaranjada, que a montanha a abrigue de forma branda, plácida, bela, tranquila, ensolarada... e que o amanhã desponte num sol mais forte lá fora, que não queime a pele, que seja cura, inspire magia, que faça as partes rachadas parecerem únicas, formando um vitrô lúdico, e que as quebradas enfim sejam trocadas... e que volte pra mim, esta luz amarela... toda esta cena, pintada à óleo, guardei no coração. Espero daqui a algum tempo me ver entre as luzes que pintei.


Dhenova

16 de fevereiro de 2013

Alegria das águas


Alegria das águas

Observo a cachoeira
círculo redondo que abriga
águas claras na beira
no fundo, onda escura que liga

Observo os pássaros
eles voam ao redor
alegres procuram laços
incansáveis do eterno amor

Observo a queda
pingos que se espalham
na alegria das águas
esconde-se por fim o barro

Observo os buracos na rede
fugiram os peixes dourados
energia solar os manteve
aprisionados na borda do lago.


Dhenova

15 de fevereiro de 2013

Rastros e Restos


RASTROS  E  RESTOS

R ecolhi do tapete
A lgumas letras vadias
S oltaram-se das correntes
T rôpegas, fugídias
R esgatei falsos vocábulos
O rganizei em fichários
S oletrei baixinho ao diabo

E moções e descobertas... e calei

R efiz a trilha à direita
E ncontrei meu ninho
S abotei então o ego
T ransformaram-se os restos
O s laços do universo
S alvaram-se pelo caminho.


Dhenova

12 de fevereiro de 2013

Fim da História

Fim da História


Que se fechem os portais
e a Terra permaneça afastada
Que se quebrem os elos abissais
sustentem-se os fracos com suas cargas

Que os relâmpagos finquem o chão
e a energia seja suficiente
O corpo estranhará a invasão
luz que alcançará a mente

Que a chuva forte lave os pastos
enquanto montes e serras são reorganizados
Escorram os pingos por matas e asfaltos
e o destino escreverá atravessado

num caderno marcado

Que o vento arranque as notas
dos que cantam as memórias
Vozes voarão nas madrugadas
lamentarão velhas glórias

e as almas serão enfim libertas
num quadro desenhado em sépia
pendurado na parede das idas
ilustrando o fim da história

simbolizando a despedida.


Dhenova




Nos braços de Morfeu


Nos braços de Morfeu

Pensei acordar do pesadelo
Os olhos permaneceram fechados
Senti na garganta o veneno
Num gole, o gelo quadrado
Vi a cara manchada no espelho
Um brilho já desbotado
Sorri, desarmada, ao destino
Encarcerei-me no quadro

Depois de beber a taça de vinho

Eu vi na retina o brilho do lobo
Algoz cruel e desumano
Animal que fez da vida um vício
Algo entre órfão e demônio
Ofereci-lhe convicta o porto
Preferiu outros tantos cais
Chorei mares tristonhos
Engarrafei os meus ais

Depois de enviar tolos sinais

Conquistei a paz com ferrenha luta
Sangue jorrando pelo quarto
Contei meus pedaços de dois em dois
Juntei tudo e em meio aos cacos
Encontrei meu eu perdido
Ainda que tenha sido bizarro
Encostei a cabeça no travesseiro
A procura dos braços de Morfeu

Depois, é claro, de pronunciar o adeus.


Dhenova

8 de fevereiro de 2013

Buquê de Borboletas


Buquê de Borboletas

Trago nas mãos um buquê de borboletas coloridas, dispostas lado a lado, amarelas, azuis, brancas, risonhas, intensas, etéreas... trago nas mãos o sonho, polén encantado, capaz de espalhar o amor verdadeiro, tirado do jardim sem pecado.

Dhenova

1 de fevereiro de 2013

Hora de partir


Hora de Partir

H oje a tarde é fria
O momento de ir
R enitente chegou
A guardarei o fim

D este insolúvel horror
E nquanto tu vais...

P artirás de mim
A fastarás as cortinas
R eceberás luz carmim
T rilharás outras sinas
I rás assim tristeza
R ealizada e sem beleza.

Dhenova

Pela vidraça da sala


Pela vidraça da sala


E a mão corre espalmada
pela vidraça da sala
mostra lá fora o véu cinza
chuva fina o campo molha
passo a mão de unhas curtas
espero o canto e choro
ansiando por outra porta

mas as portas foram fechadas
ficou só a janela de vidro
ainda que o vapor
que embaça os sentidos
forme figuras de amor
e tente provocar o riso
o escuro do dia se faz bizarro

perdi a ilusão de ontem
ao ver-te tão arisco e frágil
oh, pobre retângulo transparente
em que escorre a mão espalmada
lá fora, misteriosamente, agora
há uma trilha de amapolas
vermelhas enfileiradas.


Dhenova