Faço versos com o vento, areia do deserto; minha densidade eu mesma aguento, não sou sexo frágil; imaturidade não concebo, indiscutível é o intento, todavia, quando a maré é alta, o poema sai aos avessos, meio sem forma, mas no conteúdo, ah, ele arrasa e não deforma.

7 de janeiro de 2013

Garimpo


Garimpo

Jéssica juntava os palitos de fósforos queimados, um por um, e guardava na bolsa de plástico cor-de-rosa que trazia atravessada no peito. A cor rosa trazia manchas amareladas, não só pela sujeira, mas também porque fora achado no lixão perto do casebre onde morava com a mãe. O irmão abestalhado ficava horas sentado por ali, olhando às vezes para Jéssica, esquálida e muito branca, sem falar nada, nenhum resmungo, o olhar perdido, daqueles que enxergam mas não veem... Jéssica continuava sua empreitada, juntava um, dois, três palitos de uma vez só, quando não havia mais nenhum, a menina de cabelos negros, escorridos, de lábios finos e dentes separados buscava outros tesouros que só o lixo poderia trazer... encontrou uma vez  uma boneca sem cabeça, daquelas que falavam, a mãe achava estranho a boneca ainda falando, embora com um som arrastado, pilha gasta, sem cabeça, e mexendo os braços. ‘Coisa do demônio’, dizia. Jéssica ria. Chorou muito quando o irmão arrancou os braços e as pernas da boneca e colocou no fogo. O cheiro de plástico doeu fundo em Jéssica. Outra vez, achou uma revista, na capa rasgada um casal sorrindo. O sorriso da mulher loira, de olhos azuis e dentes perfeitos ficou perturbando-lhe o sono. ‘Um dia’, pensava, ‘ terei dentes assim, brancos e perfeitos...’ Quando cansava de garimpar, Jéssica corria para cima do morro. De lá, podia ver parte da mata fechada à esquerda, as folhas verdes brilhando ao finalzinho de tarde. Alguns telhados, escondidos pelos arbustos, deixavam na imaginação de Jéssica suas fachadas. ‘Um dia’, pensava, ‘serei eu a dona de um telhado’.

Dhenova

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