30 de janeiro de 2013

IV


IV

Balancei a bandeira
vermelha e esperei
cartas seladas ali
tão quieto aguardei

por dias...

Chacoalhei a bandeira
a esmo, com vigor
corri como louco
pra escapar do horror

por meses...

Arrastei a bandeira
por todos lugares
molhei meus pés
em vários mares

por anos...

Rasguei a bandeira
em frente ao altar
da deusa do amor

eu, prisioneiro do mar.


Dhenova
(Jorrando)

29 de janeiro de 2013

Porta da Frente


Porta da Frente

Quando a porta da frente se fechou ao acaso
fiz da louca emoção um breve momento raro
esperei que a conversa sanasse a ferida
encontrei nova ilusão no instante da vida

Quando a janela lateral bateu de repente
vislumbrei o futuro e a saudade cinzenta
vi o pó dos móveis criar a bruma na mente
imaginei a solidão cruel, feroz e violenta

Quando a outra janela se abriu delicada
permiti que a luz dourada entrasse na sala
e percebi a conquista da paz almejada

Quando a tortura de ser criatura abriu o portão
tive a alma mais pura, envolta em candura
e buscar minha cura foi a grande paixão.

Dhenova
dezembro 2009

25 de janeiro de 2013

II


II


Dancei envolta num véu
corpo nu arqueado
trancei o cabelo vermelho
mostrei o rosto em quadros

dancei à lua...

dancei envolta em nuvens
num horizonte escuro, mas límpido
desfeitas foram todas pontes
desenhados os aneis de saturno

dancei ao mar...

dancei envolta em ondas
lambidas dadas na pele
coroada pelas sombras
busco o sol mais leve

dancei às estrelas

dancei faceira
esquecida da esmola
fiz do dó a nota
tornei-me feiticeira...

dancei.


Dhenova
(Jorrando)

Jorrando...


Jorrando...


Ao redor da grande árvore
havia marcas da fogueira
sabíamos da passagem
e da tola brincadeira

ao redor havia mágica
explícita em peitos nus
vivíamos sem maldade
nos corações jorrava luz

ao redor da grande árvore
gritos mudos dos galhos
desafiavam a vida pra luta
tudo escrito num diário...


Dhenova

24 de janeiro de 2013

Carrego flores


Carrego flores

Por caminhos tortuosos
magrela anda apressada
não há olhares curiosos
apenas o fim da batalha

Pela subida íngreme
bicicleta do destino
carrega flores do campo
no ar um perfume divino

Pétalas voando na descida
duas rodas, um só guia
sem freios na corrida
até encontrar a poesia.

Dhenova

A farra


A farra

A farra foi pelos porquinhos
por um instante esquecida
ao verem o sol pela cortina
e apesar do 'não' firme
não se deram por vencidos

'o quintal está molhado'
D. Porca docemente dizia
'a hora é do almoço
não de rolar no barro'

o fogão era o limite
pensava D. Porca
caso enveredassem por ali
fecharia a porta

Aceitaram com chiados
e partiram pra outros lados

Então, a porquinha
foi ouvir Hannah Montana
aos berros, gritos insanos
e o porquinho rolava no tapete
fazia zum zum com um pano

D.Porca, quase louca
olhava pra outra porta
e pra janela e esperava
o milagre vindo da estrada

Esperava a vinda
da porcona Beth
chique e colorida
a melhor babá da história
firme, engraçada, nada dengosa
cuidava bem da porcalhada
e não era de prosa

mas e a Porcona Beth? Nada...

Após lamberem os beiços
com uma boa macarronada
os porquinhos cansados
buscaram o colo farto
da D. Porca...

nesta hora,
chegava Porcona Beth
e sorria amarelo, vencida
o trânsito uma loucura
ainda mais que era dia
de fazer compras, de fila

Beth viu o sorriso de D. Porca
que acomodou os filhos
no sofá de listras
e ainda beijou os dois
antes de sair pra lida.

Dhenova

O Porquinho que vestia azul


O Porquinho que vestia azul

era um porquinho
ele saltava e corria
por todos os lados
pra baixo, pra cima

no chiqueiro amarelo
as tábuas riscadas
no quarto em L
o sol como entrada

o porquinho esperava
a hora do lanche
com ansiedade encarava
o bolo como um romance

o que lhe incomodava
barriga sempre vazia
contava as horas
para nova comida

vez por outra, a porquinha
sua irmã de brincadeiras
zangava-se muito feio
com as travessuras feitas

mas eles sempre riam
abraçavam-se corados
deixando a semente
num outro campo arado

no fim da historia
já no seu cantinho
o porquinho roncava
pijama azul de listrinhas
já tinha feito a farra
agora era esperar o dia.


Dhenova

Abismo


Abismo

Olhos de pedra me fitam
E eu, muralha que sou
Devoro o silêncio que me há
Habito a ausência que me basta

Olhos de água me tocam
E eu, confusa que estou
Quero a paixão no meu corpo
E o pulsar do coração vazio

Olhos curiosos me perguntam
E eu, ainda sem resposta
Abro a porta num salto
Tento encontrar a saída

Olhos navalha me ferem
E eu em cortes, aos farrapos
Procuro no vento um abraço
E entrego a minha sorte ao acaso

Dhenova e Michelle Portugal

Não pergunte


Não pergunte

Não pergunte ao vento
nem ao mar
não desfaça dos elementos
nem tente me salvar

Não pergunte ao verso
ele já morreu
não queira o regresso
da poesia do breu

Não pergunte a ninguém
nem mesmo ao todo
não queira saber nada
deste meu universo roto.


Dhenova

Um alento


Um alento

Não quero o corte
a falha, quero a sina
mas não a navalha
Saber da vida toda
fazer o pedido
e ainda assim
ser repreendido

Não quero a alienação
beleza e canção
são prioridades
sei que há verdade
na chama acesa
mas já apaguei a vela
agora é a luz
do sol poente

Não quero o pecado
nem mesmo a perfeição
fujo da emoção fingida
quero mais do dia
da ida, e ver a cor
do imaginário

Sei que não sou certo
e nem esperto
tampouco otário
saio quase sempre ereto
cordialmente correto

Vejo a solução lá fora
ao longe, na aurora
Sei da porta aberta
mas fazer o quê?

Sou poeta.

Dhenova
30/8/2010

23 de janeiro de 2013

Verso Pródigo

Verso Pródigo

Era madrugada
quando pari a semente
parto difícil, prematuro
era madrugada
quando rasguei o ventre

era alvorada
quando acariciei o filho
com amor da mãe mais amada
mostrei aos deuses o fruto
era alvorada

era manhã alta
quando soltei o rebento
cresceu de forma desordenada
expandiu-se por dentro
era manhã alta

era tarde de calmaria
paz desejada no íntimo
verso pródigo voltou à poesia
enquanto cantava meu hino
era tarde de calmaria

era noite de estrelas
quando palavras gentis
foram deixadas no portal
escritas em 'x'
emoção fluiu natural

era noite de estrelas
a chuva foi embora
criptografei a mensagem numa rosa
era esperada a aurora
que se mostrou sem igual

e a emoção fluiu natural.

Dhenova

22 de janeiro de 2013

Horizonte Violeta



Horizonte Violeta

A mulher olhava pela janela
buscava o horizonte violeta
não havia flor mais bela
nem tampouco as borboletas...

A mulher insistia no mito
e no intenso olhar vazio
o bem disperso no infinito
e o novo como antigo vício

A mulher queria ser livre
encontrar a mais torpe canção
dessas que o tom é medíocre

E também amansar o coração
a procura sempre do ínfimo
e só então desvendar a emoção.

Dhenova
07/02/2010

Entalhado


ENTALHADO

E ncravado na madeira
N avio de pirata
T remula a bandeira
A quela vista da mata
L á, a mulher nua
H abita numa palmeira
A espera do bandido...
D o ornamento barato na parede
O entalhe mostra a cena perfeita.


Dhenova

E a poesia?


E a poesia?

E a poesia, onde foi parar?
Talvez na barriga vazia daquele menino sem lar
Talvez no olhar abstrato da musa do retrato
Talvez nos dedos do pianista, tão reservado
Talvez no andar apressado do grande artista...

E a poesia, onde foi parar?
Não sei, meu querido, talvez lá no mar
Talvez esteja nas estrelas, no horizonte,
enfim, na natureza...

Talvez ela volte, um dia
talvez ela venha doce ou medíocre
repleta de rimas pobres, ou ricas
talvez ela nunca mais apareça

e ainda assim, não pretendo esquecê-la.

Dhenova

21 de janeiro de 2013

Similitudes


SIMILITUDES


Tenho o pé na terra
e os olhos no vento
busco só a resposta
do outro lado da porta
a noite é de tempestade
raios, trovões, ventania
e eu aqui
o pé no chão
e ainda é a mesma
a mesma estrela
que me guia

eu te vi no retrato
um sorriso suave
no olhar, lá no fundo
uma tristeza sem jeito
abafada no tempo
esquecida? não tão cedo
na expressão firme
a responsabilidade
de quem ama
e levanta da cama
mesmo no inverno mais frio
e vai olhar a cria
pede com esperança
pra estrela do norte
desejando sorte
de ter mais um dia

Tenho o pé no chão
e o coração na chuva
sei a proposta
relâmpago, trovão, agonia
o pé na terra
o coração no chão
e a vida por um fio.

Dhenova - 02/03/2009

20 de janeiro de 2013

Notas de rodapé


Notas de rodapé

Doloroso foi o espinho
fino e pontiagudo
cravado no meio do pé
arrancou um grito surdo

quase ao mesmo tempo
brilho do sol fez ninho
espelhou nova maré
vi então o torvelinho
cruel e absurdo

na cegueira do caminho
esqueci o meu boné
e fui falando sozinho
antes de perder a fé
entre duas taças de vinho
e notas de rodapé.


Dhenova

Zona


Zona

Os dedos tamborilam na mesa de fórmica. O vermelho do esmalte não encontra contraste com o da boca quando a mulher leva o cigarro aos lábios. Ela traga profundamente. A fumaça sobe em espiral, até o teto de madeira. Algumas pessoas estão paradas no balcão, esperando o lanche engordurado. O menino traz algumas moedas e uma nota de dois reais na mão. O homem com o casaco de lã azul pinta o bigode de preto e está olhando para a rua. Uma senhora de vestido cinza escuro confere a hora no relógio de pulso pela terceira vez. Neste momento, entra um moço de cabelos longos e negros e a mulher de unhas vermelhas levanta-se da cadeira. A saia curta está bem acima dos joelhos. A blusa de malha transparente revela seios fartos presos por um sutiã negro. O estômago proeminente quase sai pelos botões. A mulher se aproxima do moço e sorri. Sorriso de dentes amarelos. O moço olha para a mulher e não sorri. Ela faz um gesto com a mão. Mas ele baixa a cabeça. A mulher, então, ajeita a bolsa de oncinha e sai. Antes de atravessar a rua, atira o cigarro na calçada de cimento cru.


Dhenova

Verso Predestinado


Verso Predestinado


Ingênuo, abstrato verso
nasceu livre, feliz
empilheirou rimas
riu das falhas vis
buscou matizes e sinas

Colorido, apaixonado verso
traçou linhas imaginárias
desejou no céu controverso
gravar amor sem falácias

Tolo, imaturo verso
fragmentou-se em batalhas
seguiu atrás do convexo
encontrou só navalhas

Decepcionado, amargo verso
desenhou tristezas
no chão verde imerso
desdenhou belezas

Atrapalhado, medíocre verso
fez da briga a cena
entalhou ódio no anverso
e renegou poemas

Entristecido, doído verso
em seu último suspiro
solilóquio disperso
fez-se amante do mito

agonizou envenenado
soprou tom perverso
distorceu embriagado
pueris manhas
em brancas linhas...

Expulsou o verso
agonia velada
marcou o fim do eterno
escreveu a última letra
morreu, enfim, predestinado.


Dhenova

Caminhada


Caminhada

Caminho sozinha
na escuridão
me encontro perdida
sem coração

Quero o dia
de pura emoção
a noite é fria
já sem paixão

Caminho tateante
entre espinhos
me pego viajante
sem carinhos

Quero a doçura
no olhar abstrato
sem a feiura
de um amor bastardo.

Dhenova
11/10/2009

XII


XII


Sede
lábios inchados
rachados
ressecados
pele opaca
esverdeada
a gosma endurecida
envolta na língua
quase preta
ambas
o frio que sobe
pés e pernas

gesto incauto
calcificado
fremente

mãos, ventre
coração, peito
cabeça, garganta
silêncio consciente

espera 
do fim do ciclo

quimera
alívio.


Dhenova
(Meus silêncios verdes)



Meus silêncios verdes terminaram, as gosmas foram espalhadas pelo pátio, desenhadas com a biles minhas ilusões, que misturaram-se à terra vermelha. E a chuva fria, linda chuva de pingos grossos e faceiros, encerrou mais um ciclo, fez barro, que correu pelo ralo com a intensidade do fluxo, e lavou a alma toda do sonho, delírio. A gosma ficou transparente, tornou-se parte da chuva, e a cena inspirou poesia, ainda que turva... e a vida seguiu seu curso, de forma absurda.

XI


XI


E a gosma que surge
 não vem da garganta
aparece do nada, 
acumula-se no ventre
avoluma-se, a maldita 
gosma verde...

E a gosma cria corpo, 
tão disforme e torto
vai e sobe
pressiona o peito
ah, maldita gosma... 
mais e mais verde

E a gosma entra em ebulição
espalha-se pela cabeça
escapula pelos olhos azuis

E a gosma escorre
pelos ouvidos
explode verde e amarela
na blusa de seda
e tapa a boca vermelha.


Dhenova
(Meus silêncios verdes)

X


X


Escuto cada passo
sinto nos ouvidos
frenéticas batidas
como som de cascos
a gosma abraça a cintura
o trote lento e certo
nos olhos o vermelho
respiração ruidosa
ensaiado sorriso
verde absoluto
delírio?

Boca muda
silêncio que irrita
consome, agita
o melhor guia

silêncio feito de sal
e agonia.


Dhenova
(Meus silêncios verdes)

19 de janeiro de 2013

IX


IX

A ira consome o riso
precipício, abismo
coisas do tipo

pensamento voa
e dá de cara no vidro
espatifa no chão

cruel e divina
estupefação

percebida no corte
evaporação
ideia inacabada
inexata
sem qualquer resumo
fraca e inoportuna

assim como o silêncio
ainda inteiro
sem entremeios.

Dhenova
(Meus silêncios verdes)

VIII


VIII

Extraio um a um os espinhos
faço o colar
não circulo o pescoço
ao contrário
cravo inteiro no esboço
papel manteiga
e fica só o traço
marcado por pontos
pretos e roxos

manchas vermelhas
aparecem aos poucos
nas pontas dos dedos 
rasga-se o verso
as letras fogem
escoam pelo ralo
a céu aberto

o silêncio insistente
espalha-se pela sala
quarto, cozinha
armários

e a poesia adormece
órfã de inspiração
fica apenas a gosma
crua sensação.

Dhenova
(Meus silêncios verdes)

VII


VII


O “outro lado” não é frio
é gosmento, pegajoso
abafado
cheiro de terra mofada
suor na pele
acidez do âmago
sentido diferente
sem ser aflito
silenciadas as batidas
o eco sumido

só o calor permanece
imóvel e indefeso
aos poucos
o corpo é levantado
pulmão recebe o ar
olhos se abrem
e volta a gosma

inteira, tamanha.


Dhenova
(Meus silêncios verdes)

16 de janeiro de 2013

VI


VI


Oscilações, variantes 
marca evidente
meia lua na testa
vazio na mente
calma quase absurda
e este mar de clichês
ah, à merda com isso

e o vômito vem
grosso, áspero
jorra a gosma
sufoco

silêncio
espasmo


Dhenova

V


V

O vento frio invade a sala
silencia o canto da ave
porta fechada na cara
mais uma
entrada lacrada
lamento calado
outra vez

o silêncio verde invade
sem tormento...


Dhenova

15 de janeiro de 2013

IV


IV

De repente suaviza o gosto
brisa perfumada
alento na veia
gosma afastada
murmúrio na aurora
quase pecado
boca e língua amarradas
promessa quebrada
breve instante
tantos clichês
falsos? insanos?
e outros tantos

volta ao início
egos e vícios
a gosma verdeamarelada
surge outra vez
com mais força
a danada.

Dhenova

III


III

O ácido que consome
é esbranquiçado
deixa uma rota de fogo
no íntimo
amaina as vertigens
virulentas, e sublimes
alcança o destino
a garganta 
sai pelos olhos em riste
encontra a parede
fria e verde
e escorre quente até o chão
silente.


Dhenova
(Meus silêncios verdes)

14 de janeiro de 2013

II


II

Os pés 
transformam-se em pedra
mármore alaranjado
as mãos são espadas prateadas
lanças finas do íntimo dourado
o torso ereto, calcificado
deixa a cena congelada

os dedos magros apontam o céu
ave branca surge do monte
sem viés e sem dor
rasga o brilho do horizonte
paira sobre a estátua
a cor amarelada

de repente, outra vez o verde
invade o recorte
deixa a obra terminada
pó sobre pó
e mais nada.


Dhenova
(Meus silêncios verdes)

I


I


O silêncio me invade gelado
faca rasgando a face pálida
e não há mais sangue
apenas uma cratera escura
desenhada com giz azul
aparece como figura
tão difusa na escuridão
buraco aberto, funil
rasgo sem seda
uma aberração

o silêncio que me invade, gelado e verde
sem piedade ou redenção.

Dhenova 
(Meus silêncios verdes)

13 de janeiro de 2013

Meus silêncios verdes


Meus silêncios verdes


E a gosma que surgiu
não veio da garganta
apareceu do nada
acumulou-se no ventre
avolumou-se
a maldita gosma verde

E a gosma criou corpo,
tão disforme e torto
foi subindo
e pressionando o peito
ah, maldita gosma
mais e mais verde

E a gosma entrou em ebulição
espalhou-se pela cabeça
escapuliu pelos olhos

E a gosma
escorreu pelos ouvidos
explodiu verde e amarela
na blusa de seda
e tapou a boca vermelha

daí foi que silenciei


Dhenova

Proposta Indecente



Proposta Indecente

Desejo teus dedos
sentidos no centro
que venha em prelúdios
murmúrios ao vento

Anseio a resposta
dada nos lençois
decerto a proposta
desfaz o algoz

em blocos o gozo
agoniza esfaimado
o grito do corvo
maçã em pedaços

a paz alcançada
desfaz a subida
no pico o tempo
no chão, a vida.

Dhenova
22/6/2011

Fio de Nuvem


Fio de Nuvem

Apresenta-se a alvorada
escuro dá lugar ao claro
dor partiu em retirada
hoje encontro meu amparo

Foi-se enfim a madrugada
abro os olhos e vejo anjos
deitados na mesma enseada
eles dormem abraçados
cobertos por crisântemos

Busco então a revoada
deste meu pássaro interno
medo saiu em disparada
quero o gesto mais terno
e não me importa o inverno

equilibro-me num fio de nuvem
num abraço largo ao infinito
dor não carrego mais como bagagem
sorrio ao universo florido.

Dhenova

12 de janeiro de 2013

Esmalte escuro


Esmalte escuro

paixão escrita em preto
com letras vermelhas
deixou ódio no peito
apagou doces estrelas

traição sentida na carne
um risco de esmalte escuro
levantou a tempestade
derrubou pilares e muros

paixão escrita no peito
deixou estrelas vermelhas
um rastro de esmalte escuro

levantou tempestades
mas derrubou muros.


Dhenova

As últimas portas do corredor...

As últimas portas do corredor...

E as portas foram trancadas
deixados lá fora
sentimentos todos, 
ressentimentos
mágoas, rancores, lamentos
ah, aquelas portas, seladas agora

e as portas foram pintadas
simples jardim florido
enfeitado de vermelhas rosas
no meio, fonte com o cúpido
e flores do campo desenhadas com sol

ainda que o limo cubrisse o cimento
havia insetos verdes que invadiam tudo
para celebrar o canto do rouxinol
e saber da despedida do mal

e as portas foram refeitas
nos motivos infantis e coloridos
distribuída a esmo
em cada parte entalhadas
as muitas e tantas risadas

tudo num universo definido.

Enquanto lá fora, havia outro mundo
fecharam-se as últimas portas do corredor.

Dhenova




Pássaro liberto

Pássaro liberto

Voe passarinho
vá, encontre seu lugar
busque sentimentos
pássaro de carinho
vá rir e formar outro ninho
com a intensidade de amar

voe passarinho
mostre suas asas
encante a plateia
faça sua morada
ah, pássaro livre
pela estrada
que nada te barre

seja único sempre
em voos soberbos
ou pousos arriscados
estarei aqui, entre os rostos
torcendo por ti, naturalmente.


Dhenova

10 de janeiro de 2013

Enternecida Saudade


ENTERNECIDA SAUDADE

E spero a mão
N a manhã sem pesadelo
T ento ensaiar um não
E me cala o beijo
R esgato então o sonho
N a madrugada fria
E nquanto as estrelas
C ontinuam perdidas
I mpossível viver só
D ia e noite nesta vida
A esperar novas paixões

S into as batidas
A celeradas do coração
U ma saudade imensa
D ói e mostra solidão
A guardo o sol amanhã
D oce nascer do dia
E nternecida, busco poesia.

Dhenova

Maga e o Carteiro


Maga e o carteiro

Manhã bem cedo
e lá fora um grito
Carteiro!
Maga pensa consigo
e agora?
sutiã de bolinhas
cabelos de morta
maquiagem borrada
latinhas de cerveja
por toda parte
uma piada
e desiste de atender...

mas o rapaz
de cidade pequena
não vê problema
em esperar
e de cinco
em cinco minutos
bate no vidro
e grita 'vamos acordar'

ai, Maga está louca
com o rapazote
que faz um griteiro
de não se aguentar
Ela pega a presilha
enfia nos cabelos
vai direto pra porta
disposta a brigar

sentado na calçada
está o rapaz loiro
tão simpático,
diz à Maga
que estava preocupado...

neste instante de entendimento
presilha solta-se
cabeleira vai ao vento
o rapaz foge rapidamente
assim como os três transeuntes
benzendo-se do outro lado
'ai, que susto, é o diabo'
saem dizendo...

ah, pobre Maga
assusta o carteiro
briga com o espelho
e ainda quebra sua presilha
mais cara.


Dhenova

Não entendo nada...


9 de janeiro de 2013

Escravo da Paixão


Escravo da Paixão
.
No céu alaranjado
alço voo, alado
vejo o mar
montanhas
barcos, nuvens
vejo a solidão
e o cume

no céu azulado
voo baixo, calado
procuro no cinza
o adeus
vejo o desespero
dos meus
tanta tristeza

no céu quase negro
sou refém do longo beijo
encontro o caminho
na escuridão
e do desejo
sou escravo,
sou paixão.


Dhenova

O que te faz bem...

O que te faz bem...

Que o dia comece num sorriso
que brilhe no rosto
o céu azul mais intenso
e que tudo, então, fique sereno

Que as inseguranças sejam mortas
enforcadas por nós invisíveis
na mais estranha liga de prata
que o mal seja varrido, banido
guardado na mente só momentos incríveis
e o que te faz bem permaneça no íntimo

Que a esperança do instante novo
repleto de prazer, de harmonia,
seja trazida no canto do pássaro
e que se espalhe cor pela vida

Que transcorra da melhor forma
a rotina de um dia
e que traga ainda mais prazer
respirar no mundo da poesia.

Dhenova

Jogos de cena


Jogos de cena

Enxergo bem os jogos
cenas tão vazias
conheço os jeitos tortos
e também as alegorias

Sei das cartas marcadas
objetos e delírios
dos pedidos nas madrugadas
deste universo aflito

Cansei de atores ruins
a vida vale nada nos palcos
já defini os meus fins
não quero mais tantos portos

Busquei a eternidade num beijo
que me completou a metade
estoquei potes de desejo
que me colaram as partes

Rodei todo o mundo
senti na volta a magia
no poço, já fui até o fundo
e ainda encontrei poesia.

Dhenova

Liberta

Liberta

Derrubei meus muros
com as mãos limpas
destruí pedra e concreto duro
prazer em libertar-me das sinas

Carreguei entulhos, joguei na rua
enchi várias sacolas de plástico
com mágoas, dores e dúvidas
que foram levadas, sem nada de trágico

e ainda sobraram algumas palavras tão duras
que engoli sem pressa
vomitei um chão de estrelas
criei então nova cerca

Toda de madeira branca
bem baixa para o arcoíris pousar
invadir o quintal e a casa
e me encontrar em pé, inteira, livre pra amar.

Dhenova
9/1/2013

8 de janeiro de 2013

Se eu pudesse...


Se eu pudesse
seria o orvalho na folha
do verde mais verde
a mais perfeita, pequena

Se eu pudesse
seria a brisa nas flores
tão coloridas, de mil odores
doce carinho, feita de amores

Se eu pudesse
seria a tempestade
violenta, sedenta
na cor de amendôa

Se eu pudesse
seria água da fonte
corrente, tão persistente
de beleza tão clara

Se eu pudesse
seria a terra
firme, terna
de alma poética

Mas como sou fogo
apenas aqueço
mantenho a energia
sou feita de sol, cheia de vida.

Dhenova

Semeie o bem sem olhar a quem


Semeie o bem sem olhar a quem

S iga o norte do coração
E ncontre o pretexto
M ergulhe fundo na emoção
E nobreça o conceito
I niba a crua tentação
E m vários pedaços

O rganize a vida

B atizada no espaço
E ncare a porta de saída
M ovimento acrobático

S inta o amor verdadeiro
E moldurado pelo tempo
M ascare os desejos febris

O rgulhe-se de si
L iberte-se das agruras
H umano é o ser de cura
A proxime-se do pecado
R eorganize os fatos

A lcance a pureza

Q ueira a todos com nobreza
U m ou outro não importa
E nterneça, faça o bem
M esmo a quem pouco se importa.

Dhenova

Ao som das gaitas escocesas, com Márcia Poesia de Sá

Ao som das gaitas escocesas


Dediquei meu tempo aos teus desejos
lancei no ar os dados, ergui dedos
e ainda assim tu partiste

Quis o vermelho na chuva da trilha de barro
enrosquei-me em teus breus, permiti maldades
e ainda assim tu te foste

Provoquei demônios e entreguei a alma
rastejei em teus medos, sangrei à toa
e ainda assim me abandonaste

Partistes levando contigo meus apelos
E em teu atropelo, todos os sonhos despedaçados
Alados momentos, adeus velados

Quis apagar minhas cores...
Joguei aguarrás na esperança
Dancei com a falta de luz

Te fostes, e hoje levanto!
As cores carmins do espanto
Voltam a dançar ao som
das gaitas escocesas

Provoquei a ira de meu ego
Reencontrei o amor que não me dava
e como Fênix apaixonada...
Apaixono-me por mim, finalmente.


Dhenova & Márcia Poesia de Sá

Amanhecer


Amanhecer


Luz entra pela janela
invade o ambiente frio
ilumina o quarto, a sala
ar fica menos sombrio

fio escrito em linha reta
desenhado nos lençois
perde-se dentro do poeta
o canto dos rouxinois

versos abrem os olhos
procuram os espíritos
na parede os molhos
pendurados por gritos

são chaves eternas
abrem todas portas
trancam as más cenas
em memórias rotas

são chaves idênticas
marcadas pela morte
risadas autênticas
símbolos de sorte

enquanto amanhece o dia.


Dhenova

7 de janeiro de 2013

Jogando pedrinhas a esmo


Jogando pedrinhas a esmo

Sinto o cheiro de terra molhada
procuro meu eu pela campina
ele corre solto na madrugada
fazendo festa pra lua menina

sinto o frio que envolve o corpo
orvalho fininho que cobre a pele
no ar, maresia, perfume de poucos
no vento, harmonia voando bem leve

sinto o toque da areia quente
agarro com força um punhado
busco meu eu em partículas ausentes
mas ele continua assim tão calado

sinto o gosto de água salgada
mergulho em plena noite
passo breve por destemidas algas
que arranham e ferem como açoites

resgato meu eu, salvo sem mácula

sinto o cheiro de terra queimada
e vejo meu eu num lado dourado
jogando pedrinhas a esmo, em nada
enquanto espera Apolo, em terreno sagrado


Dhenova

Trocando alegrias


Trocando alegrias
(para Virgínia Torquato)

Eu trocaria a beleza de um instante
se fossem por pensamentos exatos
trocaria também o abstrato
se fossem por gestos largos

Eu trocaria a densidade querida
se fossem por dias de brisa
trocaria também o regresso
se fosse pelo vento terno

Eu trocaria o riso nervoso
se fossem por noites de sonhos
trocaria também a alegria de um sorriso
se fossem por versos puros, límpidos

e faria mais
dividiria contigo
a mais doce poesia
em prol da magia da vida.


Dhenova

Garimpo


Garimpo

Jéssica juntava os palitos de fósforos queimados, um por um, e guardava na bolsa de plástico cor-de-rosa que trazia atravessada no peito. A cor rosa trazia manchas amareladas, não só pela sujeira, mas também porque fora achado no lixão perto do casebre onde morava com a mãe. O irmão abestalhado ficava horas sentado por ali, olhando às vezes para Jéssica, esquálida e muito branca, sem falar nada, nenhum resmungo, o olhar perdido, daqueles que enxergam mas não veem... Jéssica continuava sua empreitada, juntava um, dois, três palitos de uma vez só, quando não havia mais nenhum, a menina de cabelos negros, escorridos, de lábios finos e dentes separados buscava outros tesouros que só o lixo poderia trazer... encontrou uma vez  uma boneca sem cabeça, daquelas que falavam, a mãe achava estranho a boneca ainda falando, embora com um som arrastado, pilha gasta, sem cabeça, e mexendo os braços. ‘Coisa do demônio’, dizia. Jéssica ria. Chorou muito quando o irmão arrancou os braços e as pernas da boneca e colocou no fogo. O cheiro de plástico doeu fundo em Jéssica. Outra vez, achou uma revista, na capa rasgada um casal sorrindo. O sorriso da mulher loira, de olhos azuis e dentes perfeitos ficou perturbando-lhe o sono. ‘Um dia’, pensava, ‘ terei dentes assim, brancos e perfeitos...’ Quando cansava de garimpar, Jéssica corria para cima do morro. De lá, podia ver parte da mata fechada à esquerda, as folhas verdes brilhando ao finalzinho de tarde. Alguns telhados, escondidos pelos arbustos, deixavam na imaginação de Jéssica suas fachadas. ‘Um dia’, pensava, ‘serei eu a dona de um telhado’.

Dhenova

Requiem


Requiem

E o tempo se esvai... escorre pelo vidro, e lá fora ouço os gemidos de uma chuva fininha e insistente, chuva fria, que molha a alma, que se entranha, busca calma... faz frio lá fora, num dia cinzento e pouco poético, a umidade que a tudo corrompe, suja, destrói... e a música que toca, uma sinfonia de Mozart, invade os cômodos, partes de mim que se partem... e o tempo que se esvai pelo vidro num ínfimo, e a vida que arde já sem sentido... nenhum.

A.Yunes

6 de janeiro de 2013

Os sonhos e uma canção, presente da amada Eti


Uma música simples de flauta, com Diogo Fernandes, filho da Lua


UMA MÚSICA SIMPLES DE FLAUTA

Felicidade não se compra no mercado
Nem mesmo se pede fiado
Não se barganha com o funcionário
Felicidade não é costume diário

Felicidade não se conquista no grito
Não se impõe com ataque
Nem mesmo se concede no apito
Felicidade não é tolo achaque

Felicidade é liberdade nas ventas
Dia claro e fim de tarde corada de sol
Não se pode explicar em versos
Nem mesmo nos cantos de meu arrebol

Felicidade é sorriso de criança peralta
É flor aberta pós-tempestade
É música simples de flauta
É o abraço e o calor sincero de amizade.

Dhenova e Diogo Dias Fernandes
janeiro 2010

Peixe Palhaço


Peixe Palhaço

E foi assim que me senti, adormecido sobre as letras, sobre meu conhecimento, busquei metáforas pra sentir este infeliz lamento e ainda assim nada resolveu... continuei desmaiado, procurei no sonho o laço, mas nada encontrei. Sei da vida em linha reta, desvios e setas me confundem, não gosto de curvas, e as uso sempre como escudo... não sei o que há, não consigo acordar deste meu sonho: as letras dançam entre peixes palhaços e me tiram pra tal, sorrio ainda e nada nem ninguém é capaz de me fazer mal, não acredito nisso, acredito em cuidar do próprio umbigo ... não entendi o mormaço quando a vida floresceu. Tive medo, e continuo tendo... mas não é isso que não me faz acordar do sonho... é o cheiro, cheiro de livro, ainda que molhado pela chuva do íntimo, me faz um bem danado... é, sei lá da vida, do mormaço, nem do mal, nem do tal palhaço...

Dhenova

Enquanto leio...



Enquanto leio...


lá fora os sinos batem, ecoam em paredes vazias
risos não se escutam, apenas a voz de hienas, ou miados?
lá fora há um ribombar de canhões cor de rosa
há medo, perigo, e tolas paixões detrás de portas
lá fora o sacrifício arde em segredo, nem tanto
há também estridentes canções, rinchos estranhos
lá fora o mundo grita aflito sem nenhum pano
alguns se fazem malditos, outros tacanhos
lá fora um mito se fez marcado com tinta preta
pisou em terreno sagrado, verde chão de cometas
lá fora não não existe este tal de pecado
quando não há bem ou mal nada pode ser errado
lá fora enquanto leio meu universo vai sendo mudado...

enquanto leio... sonho
no meu mundo inventado!


Dhenova

Medo dos Rochedos


Medo dos Rochedos

Era interessante o comportamento daquela onda, o medo que tinha de bater contra os rochedos, era fascinante as voltas que ela dava, rodopiava em si, para fugir do contato, da vil correnteza que vinha e levava tudo e que fazia sentir... era interessante o muro que a onda fazia, ficava tão dura que nada a amolecia, e a correnteza passava, não a alcançava, e a cada dia a onda se sentia mais vitoriosa, não bateria nos rochedos, não se fragmentaria, não morreria em pasmos, ficaria exatamente igual...  um dia, todavia, a onda estava dispersa, havia endurecido tanto as arestas que a liquidez era nula, ela sentia falta do vibrar, de amolecer, correr junto ao sol, ver a lua surgir, tão preocupada estava com a correnteza. Então, a onda relaxou, abraçou o infinito, voltou a ver o brilho do sol tão amarelo, tudo tão bonito, sentiu a brisa encrespar suas fontes, sentiu o sol, sentiu tanto, até ele ficar mais e mais intenso, viu a onda que a correnteza a pegara, levava-a pela trilha oculta... até os rochedos... a onda esperou o choque, fechou os olhos... que não veio... rodopiou primeiro, águas perpassadas em si, em revoada, um salto só... ela abriu os olhos, estava sendo jogada pra o alto, lançada no ar, e foi aí que se espatifou nos rochedos... 
... o que viu a deixou encantada, a onda se viu em milhares de partes, coloridas, distintas, cada uma com sua essência, características... e elas, as partes, iam sendo mudadas, algumas ficavam, outras vinham, se aglomeravam, se entranhavam, nasciam... outras essências, outras características... até formar nova onda, a mesma, mas nova agora, em nova vida.

A.Yunes

Nenhum mal


Nenhum mal

Sinto o toque gelado
meu corpo espichado
no mármore frio
esparramo o perfume
no brilho avermelhado
dos teus lábios
e sinto o macio
da vida que ri

então
deixo-te ir à luta
nenhum anjo de candura
faria o que fiz
deixo-te ir à caça
nenhuma esperança
nos conduz à luz
deixo-te ir...
nenhum mal te açoitará
enquanto eu estiver aqui.


Dhenova

5 de janeiro de 2013

Oinc, Oinc, Uh, Uh


Oinc, Oinc, Uh, Uh


Enquanto o porquinho de azul
gritava uh, uh
a porquinha só ria, e ria
e falava pra mãe
"ele é bem doidinho, hein?"

e a senhora Porca sabia
que se sorrisse
a porquinha vestida de pink
passaria dos limites

e o porquinho de azul
ficaria furioso
bradaria uh, uh
todo dengoso

e aconteceria de novo
a maior briga
deboches e birras

oinc, oinc
faria a porquinha debochada
uh, uh
sairia da boca
do porquinho mal humorado

e dá-lhe farra...

Dhenova

De Vagar


De Vagar


Vaga a lua lá no céu, tão linda
tal qual o meu pensamento agora
vagando pela noite negra; infinda
saudade dos teus braços me devora

Vaga o caminho ao norte, tão severo
tal qual o desleal destino, incerto
vagando pelo dia inteiro; apaixonada
tristeza por esperar teu beijo, calada

Vagando vai minh'alma pelos vãos
da vida a ver escorrer pelas mãos
o nosso amor que eterno parecia...

Vagando vai minha canção no eco
espalha o sentimento mais sincero
resgatar a poesia num único verso.


Lena Ferreira & Dhenova

Um muro de mágoa


UM MURO DE MÁGOA

Nas paredes do quarto
estão desenhados
com giz transparente
sorrisos afilados

Na vidraça os pingos
escorrem perdidos
esculpem no vidro
inertes desígnios

e o silêncio
que abate
tal qual uma cruz

e o silêncio
rebate
e ainda seduz...


Na cama, lençois frios
apenas entre os dois
seres exaltados
um muro de mágoa

também o eco
gritos de emoção
como um remédio
para solidão

e o silêncio
que açoita
tal qual a maldade

e o silêncio
que mata
qualquer coragem.

Dhenova

4 de janeiro de 2013

Sôfrego


SÔFREGO

S ensação conhecida
O h! delírio, delícia... vem
F az nascer o desejo
R eceba o meu beijo
E ncanta com teu aconchego
G esto único, sólido
O bservar, sorver, amar...

Dhenova

3 de janeiro de 2013

e se chovessem lágrimas...


e se chovessem lágrimas...

e se grossas lágrimas
presas dentro do peito
caissem do céu azul
um tanto sem jeito

se inundassem o pátio
limpassem as dores
na cerâmica o silêncio
mostraria outras cores

e se os pingos salgados
brotassem do nada
a força da água
limparia a estrada

mas não há chuva quente
só a ilusão desta espera
enquanto o sol ardente
mais uma vez se faz fera.


Dhenova

2 de janeiro de 2013

À Rosa


À Rosa

rosa desenhada nas costas
marca da paixão em cobre
vermelho vivo do vestido
cabelo escuro num coque
olhos cobertos de viço
e um suspiro... a morte?

rosa pintada na pele das costas
arrepio que vem do ventre
maciez e brilho dourado
saber do amor e da febre
gemido aliviado
de quem mente... ou sente... só semente?

rosa pintada, desenhada, esculpida
em cada poro, rosa vermelha
vinho tinto ácido que liga
o sabor amargo ao doce gole
uma taça de sonho, de vida... de poesia?

rosa esculpida com sangue nas costas
olhar baço de fera esfaimada
coberta a face por serena mortalha
faz do vício o antigo abrigo
do braço inimigo a força do amparo
faz do céu o manto absurdo
olhos cor de mel que seguem obtusos...

rosa esculpida, desenhada, pintada
na pele das costas, vinho tinto e ácido
rosa vencida por mãos de artista
retratada com cheiro de orvalho
nas costas esculpida... em morte? ou vida?


Dhenova

Filha do Vento, com Lena Ferreira




Dhenova & Lena Ferreira em "Filha do Vento"
poema de Dhenova e Lena Ferreira
música de Wasil Sacharuk

mix e master de PandoraBox e Sacharuk
layout e edição de Sacharuk
apolostation 2012

Filha do Vento

Nasci poeta com o vento
alento para a vida minha
não vento só, não sozinha
poemo em cada momento

Cresci poeta com a chuva
Respingada nos quintais
Na água deslizo curva
Coração navega em paz

Crescendo, amadureci
o vento passou por mim
de novo; então percebi
princípio, meio sem fim

Amadurecendo, aprendi
A beber na água da fonte
O universo puro desenhei
Traço marcado no horizonte.

Dhenova e Lena Ferreira

Os sonhos e uma canção


Os sonhos e uma canção

Foi numa tarde de sol e de chuva
que uma cinzenta nuvem escura
viu o grande amor nascer na rua
e deixar a doce prosa mais crua

Embaixo dos pingos, o delírio
um carrossel no mar de aflitos
e o beijo que selou o destino
marcou a cena forte do filme

Foi quando o amor criou raízes
na terra fincou seus encantos
fez da guerra entre as cruzes
a nova estabilidade num canto

E se ouviu nos universos inteiros
a canção mais linda num devaneio
e o tremor dos anseios mais plenos
apaziguarem as dores e os medos

Dhenova
09/02/2010

1 de janeiro de 2013

Bebendo de sua água


Bebendo de sua água


Bêbada, eu gritava
enviava à lua
bravos uivos aflitos

Em sua água
nadei mares vadios
Deixei marcas circulares
e o coração vazio

Distante, no entanto
encontrei a razão

Servi pratos rasos
uma, duas paixões
até que cansei...

Agora, eu busco
gotas quentes, chuva
um momento novo
a conquista do sonho.


Dhenova

Apesar do amanhecer cinzento

Apesar do amanhecer cinzento

hoje acordei cantando
notas suaves e doces
procurei novas texturas
descobri outro encanto
numa imagem sólida e dura
fiz do mal quebranto

hoje acordei cantando
música de tons mais graves
já não encontrei o pranto
imortalizei meus pares
desenhei na areia da praia
dois corações e um corte
solidão em dias e noites

e ainda assim...

hoje acordei cantando
a letra menos conhecida
que leve foi chegando
que me fez menos sofrida
que me abriu o peito
e me encheu de vida.

Dhenova
01/01/2013

Semeando sentimentos


SEMEANDO SENTIMENTOS

S orvi do destino
E ncantamento divino
M ergulhei na paixão
E sperando só emoção
A lcancei o pecado
N unca querendo o fato
D escartei a doce semente e
O rgulhosa, segui em frente

S ó esqueci que na vida
E m preto, branco ou cinza-chumbo
N ão há amor sublime sem sentido
T ambém não há dor sem conflito
I nimagináveis campos floridos...
M ergulhei, então, os sentimentos todos
E mbebidos na água mais pura
N ascimento e germinação futura
T raduzindo na minha cura
O s desejos coletivos
S oerguendo, com louvor, os castelos coloridos

Dhenova