16 de setembro de 2012

Nos Varais: as sacolas plásticas


Nos varais: as sacolas plásticas


As cortinas de náilon balançam à vontade da brisa forte, quase vento, que anuncia o temporal. Os varais ensaiam uma brincadeira de corda. No vai e vem, o prendedor solitário escapa-se de alguns pingos, de outros nem tanto. E as sacolas de plástico, com lixo seco, estão à mercê da chuva grossa que cai. Uma das cordas dos varais roça-se ao material barulhento e a estranha melodia alcança o pátio vazio. Junto os pingos que pingam. Não há crianças correndo, nem a zoeira das bicicletas, dos freios, que crianças não têm. Apenas o farfalhar das sacolas rege o momento.

De repente, um pássaro escuro surge à janela e, por detrás das cortinas, posso vê-lo a sacudir as asas num balé bonito. Ritual terminado, o bicho me vê, sinto um arrepio, mas mantenho o olhar. Ele me vê, sentada à mesa, caderno e caneta e permanece ali.

O tempo é de tormenta e a noite vai nascer fria. Olho o pássaro mais uma vez e ele parece me dar adeus. E realmente dá. Voa livre, bem alto, e some.

As sacolas continuam a melodia irritante, o pátio continua vazio, os varais insistem nas brincadeiras sem graça e, em mim, o sentimento contrário, de plenitude, me toma inteira, entorno a taça e sorrio ao destino. Um brinde. Sou tão vermelha que o cinza não combina, ainda que a combinação seja clássica. Sei onde ir.

Suspiros de claridade ainda permanecem no vidro da janela e servem como espelho. Vejo meu reflexo. Finalmente, voltaram minhas asas negras.


Dhenova

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