29 de setembro de 2012

Sob a Neve


Sob a Neve


Pela janela aberta do quarto
observo o cinza amanhecer
vejo o campo agora branco
imaginava o que ia acontecer...

Quando os flocos de gelo
começaram a cair lentos
não quis o espetáculo belo
vi que o verde seria coberto

e cismei com esse momento

Senti que a seca folhagem
plantada em frente à varanda
partiria em sua última viagem
não participaria da ciranda

Quis que a velha roseira
fosse forte o suficiente
aguentasse firme a guerra
apostasse experiente

mas entristeci com o silêncio

Por sob a neve densa
ficaram as finas árvores
numa beleza pretensa
sobrou o gélido mármore

Agora vejo a trilha longe
não há vida aparente
só o palco molhado e doce
e a morte sorridente.

Dhenova

26 de setembro de 2012

A Revoada


A Revoada

Voe sempre em frente
pássaro amarelo
busque no tempo
o bem mais secreto
esqueça do passado
de tantos fardos
voe sempre em frente
pássaro ausente

voe muito ao redor
pássaro azul
com as grandes asas
risque o céu em u
esqueça o traço
seja menos apegado
voe muito ao redor
pássaro de nós

voe de forma constante
pássaro preto
desenhe a trilha
no ar, mesmo que fria
queira a breve vida
voe de forma constante
pássaro mutante

Num voo único
a revoada
de pássaros únicos
libertos na mata.


Dhenova

Se te faço um carinho


Quando a gente começa a escrever 'inho' e 'amo' em poesia, talvez esteja mais do que na hora de repensar a escrita... 

este saiu sentido!


Se te faço um carinho

se te faço um carinho
não é pelo ego
essa coisa de 'inho'
me tira o sossego

e não é pela gana
esta tão arraigada
essa história de lama
já varou madrugada

também não é pelo laço
este medonho se fez
enraizou os pedaços
sozinho em sua mudez

e certo, também
não é pela harmonia
esta que invade os poros
conquista na poesia
estes versos tão tortos

se te faço um carinho
é porque ainda te amo
não importam os ninhos
quando o que existe
é plano.


Dhenova

25 de setembro de 2012

Um caminho com flores


Um caminho com flores


Foi então que eu vi
o quanto sou frágil
que muito preciso
de um terno abraço

foi então que senti

senti a vida pulsando
quero sorrir mais
não quero o pranto
alçar voo alto demais

foi então que parti

e parti sem rumo certo
busquei no andar
caminho correto
esqueci de me amar

foi então que entendi

fiz da partida alento
brincadeira de roda
entrei no teu leito
já fora de hora

e muito tarde eu vi

que a trilha é gasta
pedras machucam os pés
e então dei um basta
não quero mais os viés

foi então que percebi

quero sim a partilha
pulso com pulso
sangue com sangue
e não vejo saída

mas nenhum desânimo

curei as feridas
com o sol no rosto
sorrio às idas
não há nada torto

só flores perfumadas
num deserto tristonho.


Dhenova

16 de setembro de 2012

Nos Varais: as sacolas plásticas


Nos varais: as sacolas plásticas


As cortinas de náilon balançam à vontade da brisa forte, quase vento, que anuncia o temporal. Os varais ensaiam uma brincadeira de corda. No vai e vem, o prendedor solitário escapa-se de alguns pingos, de outros nem tanto. E as sacolas de plástico, com lixo seco, estão à mercê da chuva grossa que cai. Uma das cordas dos varais roça-se ao material barulhento e a estranha melodia alcança o pátio vazio. Junto os pingos que pingam. Não há crianças correndo, nem a zoeira das bicicletas, dos freios, que crianças não têm. Apenas o farfalhar das sacolas rege o momento.

De repente, um pássaro escuro surge à janela e, por detrás das cortinas, posso vê-lo a sacudir as asas num balé bonito. Ritual terminado, o bicho me vê, sinto um arrepio, mas mantenho o olhar. Ele me vê, sentada à mesa, caderno e caneta e permanece ali.

O tempo é de tormenta e a noite vai nascer fria. Olho o pássaro mais uma vez e ele parece me dar adeus. E realmente dá. Voa livre, bem alto, e some.

As sacolas continuam a melodia irritante, o pátio continua vazio, os varais insistem nas brincadeiras sem graça e, em mim, o sentimento contrário, de plenitude, me toma inteira, entorno a taça e sorrio ao destino. Um brinde. Sou tão vermelha que o cinza não combina, ainda que a combinação seja clássica. Sei onde ir.

Suspiros de claridade ainda permanecem no vidro da janela e servem como espelho. Vejo meu reflexo. Finalmente, voltaram minhas asas negras.


Dhenova

14 de setembro de 2012

O voo do menino


O voo do menino

Ah, aquele menino
buscou no tempo
um novo ânimo
procurou no espaço
outro plano
divagou pela vida
seguindo a trilha
encontrou a ferida
no peito aberto
vasculhou o armário
e foi descoberto

Ah, aquele menino
correu tanto e tanto
perseguiu estrelas
viu diamantes
contou até cometas
pobre menino
voou e voou
quando pousou
distante do lugar certo
viu diante de si
um novo dilema
possuía asas
mas perdera suas penas
e agora?
Continuar o voo
ou inventar um poema?


Dhenova

* Intertextualidade com 'Menino', de Danniel Valente, na comunidade do orkut "Inspiraturas".

13 de setembro de 2012

A Cadelinha Mary

A Cadelinha Mary - No picadeiro: os animais

Enquanto dava voltas
às bordas do picadeiro
a cadelinha Mary
buscava consentimento
do treinador idiota
que se achava o grande
e era só um bosta

Cheia de charme
rebolando as ancas
a poodle de pelos claros
trazia no saiote branco
estrelas azuis pintadas
e olhava pra o alto

Se via o homem tolo
balançar a cabeça
com cara de bobo
de um lado pra outro
quase morria de tristeza

Mas a cadelinha não desistia
vinham as bolas
e ela as empurrava, rápida
vinham as músicas
e ela dançava, graciosa
só quando vinha o fogo
é que ela parava, medrosa
empacava, não fazia mais nada
o que lhe rendia um dia
sem comida e água

O treinador, no entanto
continuava o espetáculo
apresentava outras cadelas
Juju, tão pretinha
Malu, bem branquinha
e Sônia, a mais gorduchinha

E lá ficava Mary
pobre cadelinha
presa em sua jaula
triste e sozinha
esperava o momento
de novamente tentar
talvez já sem medo
a roda de fogo pular.

Dhenova
('Sobre picadeiros, palhaços e palhaçadas...)

A Festa do Palhaço

No camarim
de cara lavada
o palhaço não ri
o rosto deformado
mergulha lentamente
na branca tinta
com a máscara
esconde rugas
e todas as marcas
a infelicidade de um ser
que vive pra fazer rir

No picadeiro
as mesmas piadas
tortos trejeitos
quanta bobagem
e a dor lá no peito
continua igual
fincando como agulha
nas velhas entranhas

É fim de festa
algodão manchado
por preto e vermelho
sorriso sendo tirado
por mãos febris
que procuram as chaves
e acompanham passos apressados

Logo na rua
tão afoito
alcança a esquina
e na primeira mesa
homem sem freio
busca no vidro
vidro arranhado e feio
da garrafa de bebida
significado pra sua...
sua merda de vida.

Dhenova
('Sobre picadeiros, palhaços e palhaçadas...')

Em Turbilhão


Em turbilhão


Estendo as mãos
pressinto o perigo
águas em turbilhão
procuro o abrigo

colo seguro
alívio das dores
quebra do muro
perfume de flores

abraço apertado
céu de tempestade
sentimento sagrado
emoção e vontade


Dhenova
22/2/2011

12 de setembro de 2012

Por sobre o picadeiro

Alguns espetáculos podem ser considerados bizarros quando o público é mais sensível, todavia, quedas maiores, até quando mortais, deixam cicatrizes profundas e também ensinamentos permanentes, seja pra quem fica ou vai...




Por sobre o picadeiro


E os trapezistas voavam
faziam um bailado
regido pelo amor

entrelaçados
entre braços e pernas
olhavam-se alados
por sobre a plateia

desatenção do destino
enfraqueceram-se as cordas
liberaram-se tortas
pela madeira em anil

o balanço voou solto
perderam-se os nós
desataram-se de si
e ficaram jogados
à suavidade da brisa

cortaram-se os laços
e os trapezistas
voaram  tão alto...

por um instante
queda vertiginosa
brilhos alaranjados
mostraram o céu como antes.

Dhenova
('Sobre picadeiros, palhaços e palhaçadas...')

Picadeiro


Picadeiro


E foram tantos os acrobatas
voando em disparada
tantas revoadas
e seus lamentos

e foram tantos os palhaços
com a cara pintada
tantas foram as farras
e seus tormentos

e foram tantos os idiotas
e suas algazarras
voos circulares sem pista
tantas pedradas

e de repente findou
naquele circo voador
nada ficou
apenas algumas luzes

e as outras
todas apagadas.


Dhenova - (Sobre picadeiros, palhaços e palhaçadas)

10 de setembro de 2012

Rio Caudaloso


RIO CAUDALOSO

R esquícios de ontem
I nvadem a mente
O ndas negras assomam

C oração frágil, carente
A barca deixou
U m espaço em branco
D ifícil saber o rumo
A guas mornas barrentas
L ivres finalmente
O curso segue
S orvendo tudo
O caudaloso rio.

Dhenova

4 de setembro de 2012

Carta Aberta


CARTA ABERTA

C erteza eu tenho
A gora da despedida
R esgate infindo
T razido na madrugada
A parece pra vida

A deus, eu digo
B eijo o destino
E nquanto me afasto
R efaço o caminho
T odos abraços
A lém, serão dados.

Dhenova

Teu olhar...



Meu olhar procura o teu, enquanto lá fora a chuva continua a cair... e os pingos, quando batem no chão, fazem um estranho zigue zague entre a cerâmica ainda cinza e suja do pó da civilização, o verde ficou pra trás. É... E assim, com o mesmo olhar, eu ainda procuro a última estação e o teu olhar... espero, logo ali. 

Dhenova

Quem me acompanha...

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