8 de agosto de 2012

À sombra daquela árvore

À sombra daquela árvore

O vento frio acaricia a face da mulher. As maçãs salientes vão se tornando a cada momento mais avermelhadas. As rugas surgem mostrando sorrisos passados, tantas as fases. À sombra da árvore frondosa, a velha mulher olha a escada adiante, cujos degraus gastos estão descoloridos pelos vários sois. Lembra a mulher velha das histórias vividas naquela casa de madeira escura. Um chalé que abrigou a família grande, hoje apenas ela. O filho mais velho, formado em Medicina, buscou a capital, e aparece vez por outra apenas nas ditas datas especiais. A filha também, embora mais vezes, mas preferiu seguir o companheiro pela estrada da vida. Sempre que pode, volta para abraçar a mãe e ficar embaixo da árvore centenária, plantada pelo bisavô.  Ainda assim, a velha senhora sente a falta dos dias ensolarados de primavera, em que as brincadeiras podiam ser ouvidas e o griteiro característico das crianças entrava pela janela, enquanto ela fazia sua receita especial, o bolo de cenoura da Vó Cecília, e a roseira florida misturava seu cheiro ao gostoso aroma vindo do fogão à lenha. O inverno castiga a roseira atualmente e não há mais fogão, foi trocado por uma máquina que faz barulho e aquece os alimentos sem nenhuma chama, presente do filho. A mulher velha não gosta de usar a tal máquina e prefere o fogareiro de duas bocas, herança do marido pescador. Pouco faz comida, somente quando sabe que os filhos vêm. Alimenta-se mais das frutas e dos legumes e verduras que mantém com carinho no vasto quintal. Embora o inverno este ano tenha castigado seus frutos. É hora de levantar e sair da sombra daquela árvore. Com dificuldade, sobe os quatro degraus. Entra no chalé e fecha a porta, sem olhar para trás.

Dhenova

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