28 de agosto de 2012

Sem trégua


Sem Trégua

As lágrimas quentes caem do céu
Fazem poças no asfalto negro
Dentro do peito nó apertado
Grito no vento meu desamparo

Quero cálido abraço, afago
Mas a chuva persiste, sem trégua
Deixa cinza o muro de barro
Exala no ar cheiro de terra

Quero beijo estalado na face
Mãos macias cingindo o pescoço
Que o desespero fundo calasse...

Vejo dor nos olhos de quem amo
Engolida pelas muitas setas
Trilha triste que hoje proclamo.

Dhenova
22/4/2011

26 de agosto de 2012

Melhor rir que chorar


MELHOR RIR QUE CHORAR


M ais de duas horas
E u vejo o sono ir embora
L argo de vez o livro
H ei de dormir agora
O s ponteiros rodam
R indo da minha zonzeira

R efaço atos de outrora
I magino tolos delírios
R estos que não vão embora

Q uisera ter esquecido
U m grande amor passado
E stá agora adormecido

C horo lágrimas frias
H á luz na janela
O lho por entre pestanas
R aia o sol sem quimera
A gora é hora de rir
R ir pra vida que espera.


Dhenova

25 de agosto de 2012

Sobre moitas e gente que caga...


Sobre moitas e gente que caga...

E o moço de terno
viu a tal moitinha
não pensou no inverno
achou-a tão bonitinha

tentou mijar nas folhas
não conseguiu o intento
tentou cagar sem escolha
mas não havia assento

sentiu do outro lado
o senhor grisalho
ele vinha apertado
saiu tarde do trabalho

viu também a mulher
da grande botina
ela vinha sem tremer
dobrando a esquina

pensou o moço esguio
se sair perco o lugar
tão bela moita no frio
sempre um lugar pra parar

também ouviu do infinito
uma voz muito grave
'a moita é minha', um grito
'agora estou com vontade'

não percebeu o moço
que a moita cansada
criou pernas e breve
sumiu de vez pela estrada

agora no lugar da moita
apenas um grande vazio
pensa o moço vez por outra
por que tanto arrepio?


Dhenova

Mundo Inventado


Mundo Inventado

Neste mundo frio
inventei uma nova vida
descobri que o doce dia
se faz numa única via

neste mundo quente
busquei outro sol avermelhado
encontrei o fim imanente
daqueles que são avisados

neste mundo inventado
nada quis, nenhum elemento
neste mundo reinventado
desejei ser apenas o tempo.

Dhenova
13/03/2010

24 de agosto de 2012

O que significa viver...


O que significa viver...


O sol surgiu diferente
com mais brilho e calor
não que eu seja crente
mas acredito no amor

Descobri certas coisas
que nunca dei valor
sorrisos trazem as boas
chorar provoca rancor

Cada tombo que levo
pelas ruas esburacadas
faz com que levante leve
e sinta as flores perfumadas

Estarei livre dos vícios
quando chegar o anoitecer
não quero mais os cios
sei que preciso crescer

Sei também da estranha via
da dificuldade a ser superada
vou me apaixonar pela poesia
para então me sentir amada

Quero da vida o melhor
abraço sincero, elo forte
não espero mais o pior
vou atrás da minha sorte.

Dhenova

Quereres


Eu queria

Hoje eu queria a canção mais terna
a emoção mais singela
adoração tão sincera
queria contemplação mais eterna

Hoje eu queria o empate na luta
a breve conduta
real abertura
queria outra partitura

Hoje eu queria menos cansaço
o abraço apertado
olhar doce e amargo
queria o jeito abstrato

Hoje eu queria tanto
mas me recolho ao meu canto
então,espero vir a madrugada
e, com ela, a luz da lua prateada.


Dhenova

Linhas Tortas


Linhas Tortas

e eu me pego outra vez
contando as horas
ânsia no íntimo talvez
lamento indo embora

e eu me encanto
com o teu pranto
descem da tua face
lágrimas grossas
e eu me entristeço
com minhas tolas rotas

e eu me encouraço
conto cada passo
que vai te levar de mim
no relógio sem fim
e sei do adeus
já cruzou a porta
e me perco nas infindas
tuas linhas tortas.

Dhenova
24/12/2010

16 de agosto de 2012

Um sopro



Um sopro

e foi só uma sensação
como um sopro
uma lufada de emoção

e foi como se o vazio
não mais existisse
tudo como no início

e foi-se embora o medo
ficaram as coisas boas
esqueceu-se o arremedo

e surgiu a singela poesia
gritando no íntimo
mas realidade mostrou só utopia.

Dhenova

Enrolados


Enrolados


E os negativos se enrolaram
perderam a cor
tantas histórias de vida
perdidas numa gaveta
ficaram lá esquecidas

as fotos dos avós, das tias
o quintal num dia de inverno
o colorido da cerca viva
a roseira, o poço
tudo, tudo só esboço

e os negativos se queimaram
alguns sequer foram velados
permaneceram apenas no plástico
cobertos de químicos e sais de prata
não houve qualquer lembrança
que pudesse ser resgatada

o cachorro hoje velho, a babá idosa
o pé de limeira, galpão de madeira
trilha de pedras, tão cuidada a horta
o cimento que mudou a paisagem
cerâmica cinza cobriu a passagem.


Dhenova

VOZ FINA



Voz fina

V iu-se alcançando
O uvidos atentos
Z ombou da acústica

F irmou seus intentos
I ludiu a pior sina
N o palco dos sentimentos
A voz muito fina.

Dhenova

15 de agosto de 2012

Enquanto o tempo passa...


Enquanto o tempo passa...

enquanto passam-se as horas
aguardo a manhã do novo dia
a paixão arrefece com gelo
ainda que sinta tolo desejo
sei que novamente terei alegria
ao ter o abraço de um ser que ama
embora hoje a dor se mostre arredia

enquanto vejo a chuva lá fora
que cai redundante em pingos
percebo no ar o perfume
das rosas vermelhas já murchas
e longe estão meus anseios
trago no peito a doçura
espelho do amor de verdade
dos bobos que esperam candura
uma entrega sem maldade

enquanto passa o tempo
vislumbro o amor de outrora
não há mais ressentimento
procuro por dentro a derrota
tudo isso sem nenhum lamento
nada encontro a não ser eu mesma
mas não fecho as portas não
preciso encontrar de vez o meu eu

enquanto isso... tento ser feliz
à beira do abismo
esquecida dos vícios
sempre aprendiz.

Dhenova

Outro dom


OUTRO DOM

Hoje eu vejo o mundo diferente
hoje pressinto outro dom
hoje o azul torna-se cinza
perde a matiz, o brilho, o tom

Mas é que hoje
eu vejo o doce colorido
perder a cor, tornar-se azul escuro
gris, negrito...
Hoje eu ainda leio o poema mais belo
e tão singelo
e também o vejo aprendiz
em preto e branco, infeliz

Hoje eu prefiro o rosa
e ter ali a poesia pintada
hoje eu sou mais prosa
menos agonia, página virada,
sem nostalgia.

Hoje eu tenho outro dom.

Dhenova

14 de agosto de 2012

Amanheço verdade


Amanheço verdade

Vejo o nascimento do sol
deitada na areia da praia
coração em arrebol
sentimento que não falha

sei das fagulhas adiante
das queimaduras
um perigo constante
não me importa a cena crua

o calor vem com a brisa
no sorriso de felicidade
não ouço mais mentiras
do meu íntimo só verdade.


Dhenova

12 de agosto de 2012

Despida


Despida

Olho por sobre o muro
cinza esverdeado
sei do perigo imediato
e ainda assim
mantenho a postura
nenhuma fé
ou candura
nenhuma sina
ou rima
tudo tão pobre
podre
amargo e doce

olho a parede envelhecida
sei da transformação
corpo coberto de penas
sinto murcharem as mãos
olho por entre as asas
a sensação de alívio
já não sou fêmea
sou ave
disposta a qualquer
desafio

olho o V que se forma
vejo as garras afiadas
esqueço os pés
pernas e braços
sou livre agora

voo no espaço.

Dhenova
11/12/2010

O tom mais próximo


O tom mais próximo...


Hoje comecei uma tela
com a cor do coração
pintei de amarelo permanente
todo o fundo de emoção

pintei de laca gerânio
muitas flores
sem desespero nos amores

pintei de gris de payne
toda a borda
e de violeta cobalto
o tom mais próximo

de repente...

esmoreci
as palavras
me chamaram
fiz que não ouvi

e quis também pintar de azul celeste
certos detalhes
mas saiu um esverdeado estranho
sem noção, sem cuidado

até que no final ficou bonito
a poesia pintada
no quadro feito na madrugada.


Dhenova - maio/2009

8 de agosto de 2012

SEMPRE MAIS DO MESMO


S empre a mesma história
E ncantadora e ilusória
M arcada pela dor
P rivada do real amor
R esgatada no delírio antigo
E ncontra no vício o amigo

M uito deprimente
A tua ação inconsequente
I nimagináveis os perigos
S entidos pela mente

D esvarios e desatinos
O rnamentam o teu destino

M ascarado é o teu cuidado
E mbasbacado e atrevido
S ina de quem é viciado
M ergulhado no barro
O homem de vidro.

Dhenova
agosto/2009

À sombra daquela árvore

À sombra daquela árvore

O vento frio acaricia a face da mulher. As maçãs salientes vão se tornando a cada momento mais avermelhadas. As rugas surgem mostrando sorrisos passados, tantas as fases. À sombra da árvore frondosa, a velha mulher olha a escada adiante, cujos degraus gastos estão descoloridos pelos vários sois. Lembra a mulher velha das histórias vividas naquela casa de madeira escura. Um chalé que abrigou a família grande, hoje apenas ela. O filho mais velho, formado em Medicina, buscou a capital, e aparece vez por outra apenas nas ditas datas especiais. A filha também, embora mais vezes, mas preferiu seguir o companheiro pela estrada da vida. Sempre que pode, volta para abraçar a mãe e ficar embaixo da árvore centenária, plantada pelo bisavô.  Ainda assim, a velha senhora sente a falta dos dias ensolarados de primavera, em que as brincadeiras podiam ser ouvidas e o griteiro característico das crianças entrava pela janela, enquanto ela fazia sua receita especial, o bolo de cenoura da Vó Cecília, e a roseira florida misturava seu cheiro ao gostoso aroma vindo do fogão à lenha. O inverno castiga a roseira atualmente e não há mais fogão, foi trocado por uma máquina que faz barulho e aquece os alimentos sem nenhuma chama, presente do filho. A mulher velha não gosta de usar a tal máquina e prefere o fogareiro de duas bocas, herança do marido pescador. Pouco faz comida, somente quando sabe que os filhos vêm. Alimenta-se mais das frutas e dos legumes e verduras que mantém com carinho no vasto quintal. Embora o inverno este ano tenha castigado seus frutos. É hora de levantar e sair da sombra daquela árvore. Com dificuldade, sobe os quatro degraus. Entra no chalé e fecha a porta, sem olhar para trás.

Dhenova

6 de agosto de 2012

Enquanto o sono não vem...


Enquanto o sono não vem

a noite chega sem luzes
não há lua cheia
vejo apenas as cruzes
e me enrosco na teia
de sentimentos abstratos
busco lá fora meu eu
e não há mais abraços
foi-se enfim o apogeu

a noite e seus calafrios
quero a coberta
mas desisto da cama
são tantos desígnios
fico em alerta
e se acende a chama

a noite e o desespero
sofrer por paixão
apostar em segredos
é persistir no erro
escondo o tesão
encho-me de medos

a noite e seu fim
olhar busca a janela
enquanto espero o sol
continuarei assim
como numa cela
ouvindo o rouxinol

enquanto o sono não vem.


Dhenova

http://www.dhenova.com/p/enquanto.html

Aqui dentro e lá fora...


Aqui dentro e lá fora

lá fora,
no céu azul escuro
tristeza espelha
sem demora
mostra a estrela
sem brilho
e as luzes já mortas

aqui dentro,
esbarro na mesa
o anel se debate
dá duas piruetas
cai e segue o baile
rola pelo quarto
escorrega da escada
vai parar no chão da sala
faz da trilha um sinal
vermelho inebriante
e tudo se faz cansaço
num instante...

lá fora,
no céu
anil estrelado
está escrito
em nanquim prata,
desenhado a mão livre
que a loucura que sinto
morre comigo

ao lado, há poesia
num véu de fumaça
no entanto, consciência
mata a esperança
e o amor perdido
será guardado
como um tesouro
relicário de alegria
no canto do peito
até a próxima vida.


Dhenova

Garimpo


Garimpo

Jéssica juntava os palitos de fósforos queimados, um por um, e guardava na bolsa de plástico cor-de-rosa que trazia atravessada no peito. A cor rosa trazia manchas amareladas, não só pela sujeira, mas também porque fora achado no lixão perto do casebre onde morava com a mãe. O irmão abestalhado ficava horas sentado por ali, olhando às vezes para Jéssica, esquálida e muito branca, sem falar nada, nenhum resmungo, o olhar perdido, daqueles que enxergam mas não veem... Jéssica continuava sua empreitada, juntava um, dois, três palitos de uma vez só, quando não havia mais nenhum, a menina de cabelos negros, escorridos, de lábios finos e dentes separados buscava outros tesouros que só o lixo poderia trazer... encontrou uma vez  uma boneca sem cabeça, daquelas que falavam, a mãe achava estranho a boneca ainda falando, embora com um som arrastado, pilha gasta, sem cabeça, e mexendo os braços. ‘Coisa do demônio’, dizia. Jéssica ria. Chorou muito quando o irmão arrancou os braços e as pernas da boneca e colocou no fogo. O cheiro de plástico doeu fundo em Jéssica. Outra vez, achou uma revista, na capa rasgada um casal sorrindo. O sorriso da mulher loira, de olhos azuis e dentes perfeitos ficou perturbando-lhe o sono. ‘Um dia’, pensava, ‘ terei dentes assim, brancos e perfeitos...’ Quando cansava de garimpar, Jéssica corria para cima do morro. De lá, podia ver parte da mata fechada à esquerda, as folhas verdes brilhando ao finalzinho de tarde. Alguns telhados, escondidos pelos arbustos, deixavam na imaginação de Jéssica suas fachadas. ‘Um dia’, pensava, ‘serei eu a dona de um telhado’.

A.Yunes

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