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Da fêmea que sou, ah, eu sei...

28 de janeiro de 2012

Não tardou

 

Não tardou


Peguei o violão, fui até a praia
boné vermelho, tinta no cabelo
pés descalços, calças largas
unhas pintadas de preto

embaixo do braço uma esteira
óculos escuros, aneis, brincos
tudo muito azul, lilás, preto
emoldurando um mundo turvo

sentei perto da figueira
tirei da bolsa o caderno
lápis apontado incendeia
amanhecer que vem lento

e tentei duas estrofes
uma falava de vida, poesia
outra tratava da sorte
do indivíduo que contrata a morte

fiz o verso traiçoeiro
inspirado no olhar matreiro
do moço de botas de couro

"não se aproxime, não sou de touro
mas tenho cascos pontudos, é certo
vais sentir bem no teu rego,
não se aproxime, menino burro
não chegue perto de mim
sou absurdamente feliz..."

fiz o verso arbitrário
sem chance alguma de paz
enrosquei num relicário
o cordão mais forte e tenaz
e esperei o fim

não tardou...

fiz o verso debochado
na cena em preto e branco
do beijo ainda imaginado
toque puro, quase casto
sentido apenas pela flor
de laranjeira em broto
roçar de leve, pele e pele...

fiz o verso escrachado
no céu de estrelas guias
num convite mudo
recitei a poesia
e esperei luz do dia

não tardou...

renasci das cinzas.

Dhenova

2 comentários:

  1. Fui formando cenas com a sua descrição. Adorei o poema!

    Um abraço

    ResponderExcluir
  2. Grata, Mi... feliz em tê-la por aqui... mais contente ainda com a tua leitura.

    beijo grande

    bom final de semana

    ResponderExcluir

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