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Da fêmea que sou, ah, eu sei...

13 de agosto de 2010

A Bolha


A BOLHA
Abro os olhos devagar. Uma estranha sensação de pânico. A grande bolha de plástico me envolve, tira o ar. Estou dentro. Lá em cima, o céu azul, embaixo o chão duro e cru. O cinza do cimento à direita, o vermelho da terra à esquerda. No norte, o fogo; no sul, a água. Fico quieta. Mas mantenho os olhos abertos. E o vento do norte sopra, quente. Faz a bolha mover-se. Vejo o chão e o céu, o chão e o céu, devagar... Estremeço. Muito calor. De repente, o ardor é apagado pela sensação gostosa da água transparente. A mesma água que molha o plástico, e deixa uma trilha de pingos. Um caminho. E fico boiando. Agora vendo o céu, translúcido pelos pingos, e o mergulho na água azul esverdeada... e num instante, tudo é marasmo. Abro os olhos outra vez, estou no meio de uma estrada. O asfalto queimando a bolha. A respiração solta. A umidade brota nas paredes lisas. Sinto os cabelos molhados. As roupas encharcadas. A umidade toma conta de mim também. Os mesmo pingos agora dentro. Junto ao plástico. Lá fora, ao longe, a escuridão se aproxima. Não me alcança. A brisa muda sua linha. Volto a ser terra queimada. O cimento indo longe. A trilha mais temerária. Íngreme. A descida machuca as costas, a velocidade aumenta. Arrisco ser mais do que dor. E tento ver o céu, mas ele não é mais azul. Enquanto o chão deixa de ser vermelho, penso no fim. Vejo bem perto o buraco. Também do outro lado há escuridão. Não vou fugir do destino. Rendo-me ao voo da bolha, que explode no ar. Abro então realmente os olhos e suspiro fundo. A umidade escorre pelos lábios finos. Mas sorrio.
A.Yunes

Um comentário:

  1. Nossa amei esse poema!!!!! e o blog muito lindo que criativo =)parabens
    to seguindo

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