Faço versos com o vento, areia do deserto; minha densidade eu mesma aguento, não sou sexo frágil; imaturidade não concebo, indiscutível é o intento, todavia, quando a maré é alta, o poema sai aos avessos, meio sem forma, mas no conteúdo, ah, ele arrasa e não deforma.

28 de agosto de 2010

Paredes cruas

Paredes cruas

Quando o silêncio tilintar nas paredes nuas
a brisa virá perfumada, trará nas pegadas
a suave e sincera canção do novo dia
encontrará eco nos quatro cantos da casa
sairá pelas janelas brancas e quadradas
e sumirá no universo brando da poesia...

Dhenova

16 de agosto de 2010

Dança das Rimas

Dança das Rimas

Eu quero beber d'uma doce poesia
o sumo que fale do amor puro
quero dançar numa breve folia
e ter o olhar parado e morno

Eu quero ouvir uma terna canção
que bem descreva a minha rotina
quero brindar uma nova emoção
com o abraço forte, sem sina

Depois, então, olhar as estrelas
e desvendar os segredos do mundo
Esquecer de vez os tolos cometas
e viajar no mar verde profundo

Que do instinto, em mim, prestante
sobejaram vertentes versos
e verterão, tão incessantes
dançando rimas no universo...

Dhenova & Ânderlo R. Silva

13 de agosto de 2010

A Bolha


A BOLHA
Abro os olhos devagar. Uma estranha sensação de pânico. A grande bolha de plástico me envolve, tira o ar. Estou dentro. Lá em cima, o céu azul, embaixo o chão duro e cru. O cinza do cimento à direita, o vermelho da terra à esquerda. No norte, o fogo; no sul, a água. Fico quieta. Mas mantenho os olhos abertos. E o vento do norte sopra, quente. Faz a bolha mover-se. Vejo o chão e o céu, o chão e o céu, devagar... Estremeço. Muito calor. De repente, o ardor é apagado pela sensação gostosa da água transparente. A mesma água que molha o plástico, e deixa uma trilha de pingos. Um caminho. E fico boiando. Agora vendo o céu, translúcido pelos pingos, e o mergulho na água azul esverdeada... e num instante, tudo é marasmo. Abro os olhos outra vez, estou no meio de uma estrada. O asfalto queimando a bolha. A respiração solta. A umidade brota nas paredes lisas. Sinto os cabelos molhados. As roupas encharcadas. A umidade toma conta de mim também. Os mesmo pingos agora dentro. Junto ao plástico. Lá fora, ao longe, a escuridão se aproxima. Não me alcança. A brisa muda sua linha. Volto a ser terra queimada. O cimento indo longe. A trilha mais temerária. Íngreme. A descida machuca as costas, a velocidade aumenta. Arrisco ser mais do que dor. E tento ver o céu, mas ele não é mais azul. Enquanto o chão deixa de ser vermelho, penso no fim. Vejo bem perto o buraco. Também do outro lado há escuridão. Não vou fugir do destino. Rendo-me ao voo da bolha, que explode no ar. Abro então realmente os olhos e suspiro fundo. A umidade escorre pelos lábios finos. Mas sorrio.
A.Yunes

8 de agosto de 2010

O voo do menino

O voo do menino

Ah, aquele menino
buscou no tempo
um novo ânimo
procurou no espaço
outro plano
divagou pela vida
seguindo a trilha
encontrou a ferida
no peito aberto
vasculhou o armário
e foi descoberto

Ah, aquele menino
correu tanto e tanto
perseguiu estrelas
viu diamantes
contou até cometas
pobre menino
voou e voou
quando pousou
distante do lugar certo
viu diante de si
um novo dilema
possuía asas
mas perdera suas penas
e agora?
Continuar o voo
ou inventar um poema?

Dhenova
8/8/2010 

* Intertextualidade com 'Menino', de Danniel Valente, na comunidade do orkut "Inspiraturas".

6 de agosto de 2010

Senhora


Senhora

A cauda azul do vestido
carregava os acontecimentos
pensamentos e origem
opressão, crise

carregava também a maternidade
a vida e a esperança
a sorte e a mudança

a senhora olhava de soslaio
o futuro bem perto
o olhar misterioso
advindo no espaço
as outras faces
outro compasso
curioso movimento
postura diversa
tantos enlaces

os pés em riste da senhora
fazendo todo o percurso
novo mundo
as mãos suaves espelhadas
no vestido azul
na cauda alongada
nostálgica
dama do tempo.

Dhenova
6/8/2010